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Página inicial - Blog do PCO Paulo César Oliveira

PRESÉPIO TEMPORÃO


O Natal já ia longe. A vida prosseguia como se nada houvesse acontecido.

Desfeitos os presépios, restou a lembrança das folias, vozes em requinta, o mascarado saltitante, violas cheias de fita.

De volta à lida, o povo esperava.

Em São Gonçalo do Rio das Pedras, no lento passar do tempo, os marmeleiros vergavam-se, amarelos.

Em São Gonçalo do Rio das Pedras, indiferente ao lento passar do tempo, o inusitado presépio de dona Geralda remanescia.

Açulado de curiosidade, por repetidas recomendações de pessoas do lugar, fui visitá-lo.

Admirou-me, desde logo, a existência de um presépio tão absurdamente temporão, pois já vigorava, plena de roxos e culpas, a Semana Santa. Explicaram-me ser por causa de uma freira de São Paulo. Encantada, teve pena de que o sobrinho, muito interessado nessas coisas, não pudesse ter vindo com ela, pois estava em período de aulas. Em julho, coitado, seria tarde demais. O desejo da freira, passado de casa em casa, de boca em boca, virou decreto, com vigência até as férias do sobrinho estudante.

Obra de coletivo e anônimo amor fraterno, o presépio alastrara-se em piedoso mutirão, cada ano mais caudaloso. As coisas mais singelas faziam bonito, serviam de enfeite e agrado: uma barba de pau, uma orelha de burro, ovos de passarinho – marchetados e coloridos –, uma pedra diferente, semelhando gente ou bicho, um toco ou forquilha figurando parecença estúrdia. Tudo alegrava e expandia o presépio de dona Geralda, cada ano maior.

Orgulhosa guardiã da piedade coletiva, ela conduziu a visita, explicando cada tintinzinho de coisa, objeto, gesto de devoção. Falou do princípio dos começos, tudo cabendo numa caixa de sapato: o Menino, a manjedoura, José, Maria, os Reis do Oriente, um carneiro, uma vaquinha. Ah, além da caixa, e guardada junto até o ano seguinte, a lata de goiabada com algodão molhado formando robusto arrozal.

Com o tempo, romaria de gente contribuindo, foi crescendo, agora já ocupava metade do quartinho.

Ano que vem, conforme fosse, ela saía do seu canto, deixava tudo para o presépio.

– Quero ver se ponho umas lâmpadas aqui em cima, imitando umas estrelinhas – disse ela, olhos antecipando claridades.

– Ah, a senhora vai trazer o céu aqui pra dentro do quarto, não é?

Como se ouvisse imperdoável heresia, esclareceu, temerosa:

– O Céu, não! Deus me perdoe. É só o firmamento…

 

Conto de Natal inédito do acadêmico Olavo Romano, presidente emérito da Academia Mineira de Letras.

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