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Andamos tão distantes dos outros que nem percebemos o perigo

Paulo César de Oliveira
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A agressão sofrida pela apresentadora Ana Hickmann de um fã obcecado, descontrolado e agressivo, em um hotel em Belo Horizonte, levantou uma discussão sobre o que leva uma pessoa a cometer um ato como esse. O agressor, Rodrigo Augusto de Pádua, um homem de 30 anos, considerado como uma pessoa tranquila pela família, que não trabalhava e vivia trancado em seu quarto em Juiz de Fora, saiu do seu mundo particular para cobrar a retribuição de um amor que só existia nas suas fantasias e que se transformou em ódio. Rodrigo acabou morto. A sua obsessão tem um nome, erotomania, uma convicção delirante de uma pessoa que acredita que a outra está secretamente apaixonada por ela. Essa patologia já fez várias vítimas, como o ex-Beatle John Lennon. Mas segundo a psicanalista e professora do curso de Psicologia da PUC-Minas, Paula de Paula (foto), não são apenas as celebridades que estão sujeitas a esse tipo comportamento. Ele pode vir de um vizinho, de um médico com um paciente, de um aluno para o professor. Para ela, as pessoas estão muito preocupadas com suas vidas para perceber o que está acontecendo com o outro.

 

O que leva uma pessoa a agir dessa forma?

Existem várias formas de patologia mental. Uma delas é a erotomania, que é quando a pessoa coloca objetos de amor e projeta naquele objeto todo o sentimento interno. Se ela ama, ela julga que aquele objeto também a ame com tanta intensidade quanto ela ama. Na verdade, é um amor tão louco porque, não existe alteridade, não existe o outro. É uma projeção do próprio eu da pessoa no outro. E não há outro. É claro que a própria realidade acaba desmentindo isso. A realidade vai mostrar que o outro não está funcionando com a fórmula que essa pessoa doente funciona. Acaba que a pessoa não responde o e-mail, não o ama tanto quanto ele esperava e puxa o gatilho para o sentimento oposto, que é o ódio. O ódio de não ser amado. “Amo demais e espero que o outro retribua na mesma medida”. É claro que, se você está convivendo com uma pessoa que é uma neurótica, que não é doida, vai surtir o ciúme, porque o outro não me ama tanto como eu julgo que ele deveria amar, eu não sou exclusiva. Se eu estou lidando com alguém que tem uma patologia, que é uma psicose, isso se reverte no oposto do amor em ódio. Então, só destruindo o outro, só matando o outro que eu posso garantir o amor do outro. Isso porque, na realidade, é isso que eu obtenho dele. Isso faz com que a ilusão do amor permaneça, porque morto, o outro não vai poder desejar ninguém, não vai poder amar ninguém, não vai poder ter nenhuma outra pessoa. O ódio vem exatamente porque essa pessoa, louca, erotomaníaca, não pode suportar a perda do objeto, que significa a perda de si próprio. Quando ela mata, ela está matando a si própria.

 

A internet, as redes sociais acabam expondo mais as pessoas a esse tipo de situação?

Não. Isso pode acontecer com o vizinho, com o médico com o paciente, com o paciente com o médico, com o aluno e uma professora. As redes sociais só possibilitam o acesso a alguém que normalmente não teria por morar longe, por ser uma celebridade. Mas o sentimento, ele não é despertado por causa das redes sociais. Ele é um sentimento próprio desse tipo de patologia. Isso vai acontecer próximo de mim como longe. No caso que aconteceu com a Ana Hickmann, o sujeito tinha acesso a ela virtualmente. Mesmo assim, ela nunca deu bola para ele. Ela estava nas redes sociais assim como com outras pessoas. Ele não era uma pessoa exclusiva. “É justo isso?” Como é que dispara o gatilho do ódio? É o fato da pessoa não ser exclusiva. Como ela, na loucura dela, dedica tudo ao outro, ela quer uma retribuição na mesma medida. E isso não vai acontecer nunca, só na cabeça louca da pessoa.

 

A família do agressor da Ana Hickmann, Rodrigo Augusto de Pádua, alega que ele era uma pessoa calma, tranquila.

Calma porque vivia no quarto dele, só saia para fazer ginástica. Uma pessoa com idade acima de 30 anos, que fica dentro do quarto, nas redes sociais, sem produzir nada, não pode ser uma pessoa normal. Ele aparentemente era uma pessoa pacata, ficava só dentro de casa, mas dentro de casa, com a internet aberta, você está em Tóquio, Nova York, você está onde quiser. Não é porque a pessoa está dentro de casa, quietinha, que ela é uma pessoa sossegada. O desassossego desse sujeito era a cabeça dele.

 

Como é possível identificar se uma pessoa tem um problema?

Muitas vezes isso é difícil, porque algumas pessoas, os psicóticos, são muito reservados. Mas uma pessoa que não tem amigos, que fica muito tempo nas redes sociais, que não estabelece relações amorosas na realidade, é uma pessoa que sofre de alguma esquisitice. É evidente que sofre. Nós não podemos é fazer o cálculo se isso vai chegar ao nível de um assassinato, da destruição do outro. Mas é um motivo para a família se preocupar. Perguntar porque ele só fica em casa, porque só sai para ir à academia, não come direito, porque só fica dentro do quarto? Isso já é alguma coisa para chamar a atenção. Mas acho que as pessoas estão muito ocupadas com a vida. Um rapaz dentro de casa pacato, que não dá trabalho, ninguém liga. Mas é claro que se você for investigar e se a família se preocupar, ela vai encontrar sinais de esquisitice na infância, na adolescência. Isso não é uma coisa que se deflagra de uma hora para outra. Isso faz parte do funcionamento típico daquela pessoa. Chegar nesse nível já é um drama, mas com certeza, isso já acontecia em outros comportamentos dele.

 

Tem como tratar de um distúrbio como este?

Se a família detecta e a pessoa admite um tratamento, então é possível tratar. Quantas vezes vimos uma pessoa entrar em uma escola e matar não sei quantas crianças? Nós pensamos “que horas isso poderia ter sido evitado?” Poderia, se alguém tivesse o cuidado de vê-lo, de saber o que estava acontecendo. Mas as pessoas estão muito ocupadas com as suas vidas, não prestam a atenção em quem está do lado e a pessoa ao lado vem e faz uma coisa dessas. São coisas da vida humana. Não há possibilidade de evitarmos tudo. Se estivéssemos mais atentos às pessoas, talvez pudéssemos ajuda-las mais. No caso da Ana Hickmann, o agressor tinha mais de 30 anos. Era um homem. O que ele fazia, produzia? Não. Nós não sabemos a extensão, mas é uma patologia.

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