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O canto do cisne de Lula  

Paulo César de Oliveira
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Lula (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Wagner Gomes 

Na canção “Resposta ao Tempo”, que Nana Caymmi imortalizou, o tempo não mente e a letra, carregada de emoção, o personifica como uma entidade que bate à porta, sugerindo a inevitabilidade de seu avanço e a impotência humana diante dele. Ele chega – com suas mãos cheias de razão-, sussurrando que nenhum poder é eterno e que até a vaidade, quando tardia, tem gosto de derrota. O tempo – esse senhor tão bonito -, vem cobrar a conta de quem acreditou ser imune à sua passagem. Há um instante em que o poder envelhece antes do homem. O timbre se torna eco, o gesto, cacoete, e o improviso — outrora sinal de carisma — vira descompasso. As falas recentes do Lula chegaram a esse limiar:  não são lapsos, mas sintomas. Ainda cercado por fiéis e por fantasmas, tenta desafiar o inevitável: o país já não é o mesmo, nem o público, nem a melodia. O verbo que incendiava multidões hoje arde nele próprio, como se cada frase o desnudasse verdadeiramente. Aquela oratória que tangia o coração do povo, hoje se dispersa em acordes fora de tom. Lula fala para si mesmo e para o PT que zomba da segurança pública. Seus improvisos – antes cálidos, agora queimam – mais revelam do que ocultam. Lula, o sobrevivente, parece cansado da própria lenda. O palco ainda é seu, mas a plateia mudou. Há algo de sinistro na cena: o leão que ruge para esconder que perdeu os dentes. O PT, que deveria traduzir o futuro, mantém-se cativo do passado — pregando redenções imaginárias, enquanto o Brasil real anseia por reformas, eficiência e paz. O partido, preso à retórica da militância, fala de classes; o povo, silencioso, fala de contas. O PT, que deveria servir de ponte, virou obstáculo. Enquanto o país pede serenidade e rumo, o grupo insiste em revoluções de gabinete, nostalgias de palanque e guerras de palavras. A Nação quer futuro; o partido, revanche. O homem que um dia foi o som do Brasil agora se tornou o seu ruído. Enquanto o Lula da história resiste ao Lula da biologia, ele já não discursa — exorciza. Procura nas metáforas um sentido que o tempo roubou, tentando domesticar a evidência de que o Brasil real seguirá em frente – com ou sem ele, pragmático, exausto, atento — sem mais aplaudir um orador que insiste em reviver batalhas que o tempo encerrou.  Em seus gestos há um traço de desespero contido, como se fora um samba de uma nota só – ao perceber que o mito se despede do homem. E quando o silêncio vier — porque o silêncio sempre vem — talvez reste nele a consciência de que o tempo é o único aplauso que não se compra, e o único juiz que não se convence. Ele apenas passa, deixando no ar o eco de uma canção que já foi viva. Lula vive seu canto do cisne — longo, ruidoso, quase trágico. Já não é o metalúrgico desafiando os generais, mas o governante acuado pela sombra da própria biografia. O medo de ser derrotado não é apenas eleitoral — é existencial. Lula teme deixar de ser o personagem que inventou: o homem que venceu tudo, inclusive o destino, e foi promovido a símbolo. O canto do cisne é belo, mas não deixa de ser triste, pois anuncia o fim, até mesmo se vitorioso for. E quanto mais Lula tenta provar vigor, mais expõe fragilidade.  Resta-lhe a história, que será generosa no registro da ascensão, mas impiedosa na leitura da queda. Enquanto o cisne canta, o lago se fecha. Há grandeza no declínio, quando aceito. O canto do cisne é belo justamente porque é o último — e não há aplauso que o prolongue com a plateia em dispersão.  (Foto:  ) 

Wagner Gomes – Articulista 

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