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“Quero comover as pessoas com a minha arte”

Paulo César de Oliveira
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Renata Araújo

Foi bem interessante passar o último mês do ano ao lado do autor Hjalmar Söderberg, mais especificamente Hjalmar Emil Fredrik Söderberg (1869- 1941) em seu livro intitulado Doutor Glass que foi escrito em 1905. Nasceu em Estocolmo e é um dos autores mais importantes de seu país. Nesse livro é narrada a conturbada relação amorosa de um médico e sua paciente. 

Um dos pontos que chamou minha atenção durante toda a leitura é constatar a semelhança do homem e suas questões frente à vida, a passagem do tempo, as questões amorosas, suas divisões frente às vivências. São temas comuns ao que presenciamos em nosso dia a dia, trazendo à tona a comunhão da variedade de sentimentos, a partilha da dor, do amor, da dúvida, da angústia do homem comum, nós, tendo a linha do tempo e acontecimentos diferenciando o momento. 

Sentado no bar, Doutor Glass escuta a música “Strömparterren” ao fundo. Mantive-me atenta a esse detalhe e fui buscá-la no Spotify. Coloquei-a para tocar, como se eu pudesse reunir os dois momentos: o dele enquanto estava no bar e o meu aqui, sentada, escrevendo este texto. Como se numa fração de segundos pudéssemos estar juntos, sentindo a vibração das notas musicais, da voz que agora envolve meus ouvidos. 

Fiquei curiosa para saber como aquela música o tocou, a tal ponto de ele  citá-la em uma de suas páginas do livro. Sugiro que façam o mesmo: escutem-na. Criem a cena em sua cabeça, o contexto de um tempo afastado do agora: 1905. Como seria o local onde ele estava? Quais vestimentas se usavam? O que acontecia em seu país? O que acontecia no mundo? Quem sabe teremos uma tertúlia providenciada em outro tempo?

Antes mesmo de exercerem a curiosidade de vocês, fiz uma breve pesquisa para aprimorar o meu saber, e também minha memória, para construir melhor meu cenário do tempo citado. Já imagino as mulheres usando espartilhos que empurravam o busto para frente, dando um efeito de peito de pombo, e os quadris tomando direção contrária, para trás. Vestidos longos com golas altas e desossadas, chapéus intensos e ricamente decorados, era o padrão da elite vigente. Já os homens eram bem formais, sóbrio, composto por ternos de três peças 

(casaco, colete e calça), camisas com colarinhos altos, bem rígidos, uso de chapéus, como o coco ou a cartola, as bengalas também faziam parte como acessórios de status.

    Isso tudo na maior capital da Suécia, Estocolmo, na região da Escandinávia, construída sobre o arquipélago de 14 ilhas ligadas por pontes, ressaltando seu apelido “Veneza do Norte”. Em 1905 ,marcada pela Belle Époque, era uma cidade com profundas transformações políticas e sociais. O evento político mais crítico de 1905 foi o fim da união entre a Suécia e a Noruega, em outubro de 1905, a Suécia reconheceu formalmente a independência da Noruega.

   Agora contextualizado, podemos voltar ao bar onde Dr Glass está sentado, trazendo todo esse cenário criado em nossas cabeças, todas as vestimentas e não deixem de incluir a música, terão outra vivência. E hoje com tantos recursos oferecidos podemos sim transformar a leitura em um campo de experiências, navegar por cidades, ruelas, pesquisas, mapas. Tantas possibilidades! Adoro esses livros de épocas. Somos surpreendidos com o vasto vocabulário, rico, bruxuleante. 

     “Ah, o que os meus pobres olhos veriam no mundo, entregues a si mesmos, sem essas centenas ou milhares de mestres e amigos entre aqueles que poetaram ou pensaram ou viram por todos nós?” Fiquei comovida com essa passagem no texto. Como seria sem os olhos de quem se permitiu a olhar o que não somos capazes de olhar? Tantos outros mundos nos foram apresentados! “É uma desolação profunda andar sozinho com a alma infértil;” escreve Hjalmar em seu texto. Como torná-las férteis, merecedoras de várias semeaduras?

     Foram muitos os pensamentos em seu texto que me fizeram e me fazem refletir novamente sobre temas que já havia questionado antes. Ele como médico e nós como partícipe da vida. Presenciou tantas doenças longas e incuráveis, tanta coisa repulsiva, câncer, lúpus, que se questionava sobre suas posições frente a cada uma delas, e se viu conservando a mesma em nome do dever, e se indagava porque haveria de se tornar mártir por conta de uma ideologia mudando a forma de pensar: 

“Por que eu haveria de me transformar em mártir por conta de uma ideologia que, mais cedo ou mais tarde, há de ser de toda a humanidade, mas que hoje ainda é criminosa? Há de chegar o dia em que o direito de morrer será reconhecido como ainda mais importante e mais inalienável do que o direito de colocar uma cédula na urna de votação.” 

No livro de Philippe Ariès, História da Morte no Ocidente: da Idade média aos nossos dias, ele desenvolve o tema da morte, trazendo os conceitos e as culturas de cada época, além do apelo da medicina atual pela extensão da vida. Foram enunciações sobre as quais me debrucei, atravessada por muitos questionamentos diante da escolha do ser humano frente à morte. Temos alguma? Algum direito de escolher como queremos morrer?

Logo se vê que, mais uma vez, o tema vida e morte varre o tempo. E aquilo a que não conseguimos dar nome retorna: mais uma vez, mais uma vez, e assim sempre — pois a morte é de um lugar que não se inscreve; não há palavras que a nomeie.

E o homem comum circula na mesmice dos temas: “As pessoas querem ser amadas; se não for possível, admiradas; se não for possível, temidas; se não for possível, detestadas e desprezadas. Querem despertar sentimentos nos outros.” cito novamente Hjalmar em seu livro.

E você conseguiu, caro Doutor Glass. Obrigada por deixar suas marcas impressas no tempo — no texto, e no texto do tempo. Agora, o que me vem à cabeça é uma frase de Van Gogh (aliás, foi a minha primeira postagem no Instagram), que confirma as suas palavras, Dr. Glass: “Quero comover as pessoas com minha arte”.


Renata Araújo Psicanalista, escritora e cantora.

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