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Manual de sobrevivência intelectual 

Paulo César de Oliveira
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Wagner Gomes 

Charlie Munger(investidor) tinha uma ambição quase minimalista: não ser idiota. A genialidade, para ele, era consequência — e, como toda consequência, incontrolável. Já a idiotice, essa é democrática, imprevisível e insiste em bater à porta nos piores momentos. Em tempos de confiança inflada e atenção esfarelada, talvez seu conselho seja mais urgente que um manual de primeiros socorros. Vivemos cercados de gente convicta do irrelevante. A autoconfiança virou ativo tóxico: produz certezas fáceis, opiniões de plástico e líderes que erram com convicção — a pior combinação possível. Munger, com seu humor de navalha, apontava a saída: destruir crenças tão rapidamente quanto surgem evidências contrárias. É quase uma cirurgia de amputação intelectual. Dói, mas salva vidas — especialmente a sua. O paradoxo contemporâneo é cruel: somos a geração que mais acessa informação e a que menos consegue pensar. Multitarefas, telas, notificações — tudo isso sequestra o que Munger chamava de “disciplina mental”, essa capacidade monástica de sustentar atenção e considerar argumentos contrários. Warren Buffett, com sua rotina de leitura compulsiva, parece hoje uma figura folclórica, quase um monge medieval recitando manuscritos enquanto o resto da vila tenta caçar Pokémon. E não se engane: isso tem custo político e econômico. Decisões públicas são tomadas como quem desliza o dedo no feed — rápidas, barulhentas, movidas por ansiedade e por um exibicionismo intelectual que Nassim Nicholas Taleb (foto: reprodução NeoFeed), matemático, filósofo, ex-trader e um dos pensadores mais originais (e temperamentais) do nosso tempo chamaria de “cosmético”. Políticos superconfiantes erram como generais que desprezam o terreno; economistas superconfiantes constroem modelos que colapsam ao primeiro sopro de realidade. O cidadão, hipnotizado por ruídos digitais, aplaude até os escombros. Aplicar Munger, então, é um ato quase subversivo. Requer assumir responsabilidade pessoal antes de culpar o mundo — gesto antiquado que, curiosamente, funciona. Requer ler mais do que se opina, ouvir mais do que se reage, calcular antes de berrar. Exige aceitar que a mente é um palco caótico onde várias hipóteses disputam o centro; o truque é não deixar que a mais barulhenta vença. Nossa civilização da notificação quer velocidade; Munger queria lucidez. Entre as duas, há um abismo que engole políticos, investidores e cidadãos todos os dias. Evitar a idiotice talvez seja o último luxo intelectual do nosso tempo — e, ironicamente, o único realmente acessível. No fim, ser “inteligente” pode até ser sorte. Mas não ser idiota é disciplina. E, como diria Taleb, disciplina raramente quebra — já a ilusão de esperteza, essa implode com precisão suíça. Como se nota, Taleb é o patrono moderno da humildade intelectual — e o carrasco oficial da burrice confiante. 

Wagner Gomes – Articulista 

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