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O asterisco na política 

Paulo César de Oliveira
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ChatGPT Image 14 de fev. de 2026, 08 01 47

Wagner Gomes 

O asterisco nasceu modesto: uma estrelinha grega — asterískos — usada pelos sábios para marcar trechos suspeitos em manuscritos. Não era intriga; era cautela. Uma piscadela erudita dizendo: “Aqui, talvez, não seja bem isso.” A estrelinha cruzou séculos, atravessou mosteiros, sobreviveu à poeira da Idade Média e aterrissou, incólume, em nossos teclados. 
E, de modo tão improvável quanto revelador, virou arma de político. Porque, no teatro político brasileiro, o asterisco não indica dúvida — indica má-fé. Quando um candidato tenta pendurar um “*” no adversário, ele não quer esclarecer o texto; quer borrar a narrativa. É a velha arte de reduzir uma obra inteira a uma vírgula torta. De fingir que um mandato complexo cabe num rodapé venenoso. Funciona assim: um governo tem avanços, recuos, contradições — como qualquer epopeia democrática. Mas basta um tropeço, um erro administrativo, um escândalo localizado, e pronto: lá vem a turma do asterisco, ansiosa para reescrever a história inteira como se fosse um parágrafo defeituoso. O ministro caiu? Asterisco no governo. O orçamento furou? Asterisco na gestão. A economia desacelerou? Asterisco no legado. E assim se constrói um país governado por notas de rodapé mais eloquentes que as próprias políticas públicas. O mecanismo é sedutor: transforma a realidade numa lógica de sliding doors institucional. Se tal voto tivesse sido diferente… se tal reunião não tivesse acontecido… se tal delação não tivesse vazado… o país seria outro. É o efeito borboleta aplicado à Praça dos Três Poderes — mas com chuteiras de lobby. Só que política, como os antigos sabiam e os modernos fingem ignorar, não é um frame isolado. É feita de camadas. É o projeto que deu certo, o decreto que falhou, a articulação que ninguém viu, a base aliada que desmoronou, a lei que passou por um fio e a que morreu por um suspiro. É um épico cheio de glossas, anotações, rasuras — mas ainda assim um épico. Reduzir tudo isso a um asterisco é como dizer que a democracia depende de uma única linha anotada por um copista distraído. Não depende. É uma obra em andamento. Uma epopeia coletiva, às vezes trágica, às vezes cômica — e quase sempre mal pontuada. O problema não é o uso do asterisco. 
É o abuso. A estrelinha que nasceu para iluminar dúvidas virou ferramenta para fabricar certezas convenientes. E quando alguém tenta colocar um asterisco no legado do outro, o que aparece não é escrutínio. É despeito*. *e uso lamentável da pontuação histórica.  

Wagner Gomes- Articulista 

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