A pediatra Cláudia Lima Gusmão Cacho (foto: Centro de Comunicação Social do Exército) é a primeira mulher general do Exército Brasileiro. Sorriso largo, sotaque pernambucano, ela também é a primeira mulher na direção do Hospital Militar de Área de Brasília, posto que assumiu no último dia 12. Foi o marido quem a incentivou, nos anos 90, a conhecer o Exército. “Vi ali uma oportunidade. Participei do processo seletivo, fui aprovada e iniciei minha jornada. Descobri que me sentia muito realizada.”
Quando a sra. ingressou na carreira, em 1996, havia o pensamento de alcançar o posto de general?
Inicialmente, não. O foco era seguir a carreira. A ascensão ao generalato demanda muitos anos de serviço, desde o posto de aspirante a oficial. Contudo, a partir da primeira turma de oficiais mulheres combatentes, em 1997, e das turmas subsequentes, essa chance poderia surgir, desde que cumpridos todos os requisitos necessários até chegar ao posto de coronel. A partir daí, então, seria possível integrar a lista de escolha do Alto Comando.
O que a sua promoção representa para o Exército Brasileiro?
É um fato histórico que coroa a abertura que o Exército proporcionou, com a admissão de mulheres na carreira. Na solenidade em comemoração ao Dia do Exército, em Brasília, o general Tomás (o comandante do Exército, Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva) destacou a importância das mulheres em todos os postos, de soldado a general, e a perspectiva de outras generais no futuro. Este ano, em março, 1010 mulheres tornaram-se as primeiras soldados incorporadas ao Exército.
Sentiu que precisou se esforçar mais para provar sua capacidade?
Não. Desde o meu ingresso o ambiente sempre foi respeitoso e acolhedor. Na formação inicial, o ambiente também foi muito salutar. Nunca houve nenhum impedimento. Cursos, estágios, todas as oportunidades de desenvolvimento na carreira foram abertas.
General, que características pessoais foram fundamentais em sua trajetória e onde a médica e a oficial se encontram nesta rotina?
Assim como na medicina, onde a dedicação é essencial, o serviço militar exige vocação. Há, também, o amor ao paciente, inerente à medicina.
Acredito que a dedicação, a disciplina e o amor pela profissão, em ambas as áreas, são importantes. O militar é avaliado por diversos atributos: é fundamental buscar o conhecimento técnico-profissional, conhecer a instituição e valorizar a lealdade. Sempre procurei incorporar os valores da instituição. Quando gostamos do que fazemos, tudo se torna mais fácil.
Há um desconhecimento sobre a carreira no Exército? Acha que com mais conhecimento, mais mulheres serão motivadas à carreira militar?
Acredito que sim. Observa-se um entusiasmo crescente por parte das mulheres em conhecer e integrar as fileiras militares e é nosso desejo que cada vez mais mulheres ingressem na instituição. É uma carreira muito bonita: a sensação de servir, de contribuir para o país. É vestir a farda, cantar o hino nacional, se emocionar com os símbolos e com o trabalho realizado. Participamos de missões como ações cívico-sociais que nos aproximam da população. Essa experiência é gratificante. A cada ação, sentimos que fizemos algo de bom, que ajudamos alguém. Podemos ajudar muito, seja na área da saúde ou em outras áreas de atuação, sempre buscando fazer mais e melhor.
A mulher que deseja carreira militar, quais caminhos seguir?
Para as que almejam a carreira militar, existem as escolas de sargentos, a Escola de Saúde e Formação Complementar do Exército, com cursos anuais, e a Academia Militar das Agulhas Negras, cujo ingresso se dá pela Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas. No ano passado, foram mais de 35 mil candidatas, e 1010 já concluíram a formação, estando aptas a cumprir suas funções. A expectativa é que esse número continue a crescer, abrangendo todas as graduações e postos. As mulheres podem atuar como militares temporárias ou seguir carreira.
Qual legado gostaria de deixar para o Exército e para as próximas gerações?
Gosto de enfatizar a importância da autoconfiança. É fundamental acreditar em si mesmo, em seus sonhos e em sua capacidade de realizá-los. Quando se trata de carreira, conhecer, gostar e acreditar são os pilares. Desejo que as futuras gerações se sintam inspiradas por essa trajetória. Enfrentei desafios: atividades físicas e treinamento de tiro, que, para mim, eram novidades. Participei de estágios na selva, e percebi que era capaz de realizar atividades que jamais imaginei. É uma honra poder compartilhar minha experiência.
Raquel Ayres











