Wagner Gomes
“Gente que alguém admira/ Com honestidade pouca/ Na hora que abre a boca/ Tudo que fala é mentira/ Não passa de um traíra/ Querendo lhe enganar/ E já vou lhe avisar/ Para você aprender/ Tem que saber escolher/ Na hora que for votar”. Décima do cantador nordestino Tião Lima
Em “Coração Civil”, Milton Nascimento e Fernando Brant (foto reprodução Nova Brasil) dão forma musical a desejos de liberdade, justiça e felicidade compartilhada. A canção aproxima a vida coletiva de imagens do cotidiano: a família, a cidade, a amizade, o alimento. É nesse encontro entre o íntimo e o público que pode começar uma reflexão sobre o momento de votar. O segundo turno da eleição presidencial concentra a decisão entre os dois candidatos mais votados, quando nenhum alcança a maioria absoluta dos votos válidos no primeiro. Essa definição objetiva, entretanto, não torna iguais os caminhos que levam cada pessoa à urna. Há quem chegue com uma escolha antiga; há quem tenha reconsiderado; há quem ainda carregue dúvidas. O mesmo procedimento acolhe decisões individuais. A imagem de um coração civil permite pensar nessa passagem: uma pessoa, com sua história particular, participa de uma decisão coletiva. A música oferece uma linguagem para contemplar essa experiência. Seus temas permanecem abertos à leitura de quem a escuta, sem que seja necessário atribuir aos compositores uma posição sobre a disputa presente. Na cabine, o sigilo do voto dá abrigo à autonomia. Ali, o eleitor se encontra com a própria verdade: aquela que amadureceu durante meses, entre dúvidas, conversas, decepções e esperanças. As vozes que o acompanharam até ali perdem o poder de decidir por ele. Diante da urna, cada pessoa pode reconhecer o que realmente pensa e escolher, sem medo, o futuro em que acredita. Há uma coragem silenciosa nesse gesto. A coragem de sustentar uma convicção, de rever uma certeza, de contrariar uma expectativa familiar ou de se libertar da obrigação de pertencer. Quem digita o número de seu candidato e confirma o voto assume a autoria da escolha. Só o eleitor digita o número. Só ele aponta o nome, sem que ninguém substitua ou induza a vontade de quem vota. Por alguns segundos, toda a sua história desemboca na ponta dos dedos. A solidão da cabine se torna o lugar onde a liberdade ganha corpo. “Coração Civil” acompanha esta reflexão como expressão de esperança. Este artigo chega, tão somente, até a porta da cabine; dali em diante, a escolha brota sozinha. Ao apertar “confirma”, o eleitor entrega à vida coletiva uma decisão amadurecida em sua intimidade. O resultado será de todos. A autoria daquele gesto será sempre sua. E por ela, cada um de nós só deve satisfação à própria consciência e ao próprio coração. Se a consciência, algum dia, nos cobrar pela escolha, que venha a oportunidade de pacificar a alma, num próximo pleito. Livre.
Wagner Gomes – Articulista











