Por Wagner Gomes
Reeleito, Lula (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) terá que renovar a confiança econômica com atos. A continuidade do governo aumenta a cobrança por resultados. Para que o Brasil experimente uma mudança de humor é preciso mais confiança, investimento produtivo e estabilidade econômica. A perspectiva de responsabilidade fiscal e segurança jurídica abriria uma janela para investimentos. Mas janelas abertas também se fecham. Tudo dependerá do que o governo fizer depois da festa. O dólar pode cair diante de uma promessa convincente; investimentos produtivos exigem razões duradouras para permanecer. Uma fábrica não se instala com a mesma velocidade com que um operador muda de posição na bolsa. Lula tem, portanto, duas tarefas distintas: conquistar confiança e merecê-la. Isso depende de orçamento, equipe, articulação política e respeito às regras. Passadas as promessas de campanha, é nesse ponto que o discurso do corte de gastos precisa entrar na contabilidade. Cortar o quê? Quanto? Com quais consequências? A expressão parece consensual enquanto ninguém identifica o destinatário da tesoura. Quando aparece o nome do benefício, da corporação ou do setor favorecido, começa a resistência. Há desperdícios que precisam desaparecer, despesas que precisam ser revistas e serviços essenciais que precisam funcionar melhor. Misturar tudo numa única rubrica seria uma forma preguiçosa de governar. Um ajuste que preserve vantagens no andar de cima e retire proteção no andar de baixo poderá melhorar algum indicador, mas não a vida da maioria das pessoas, o que comprometerá sua legitimidade. O teste decisivo será enfrentar os interesses instalados no Estado: benefícios sem justificativa, estruturas improdutivas e mecanismos que transferem recursos públicos para grupos capazes de defender muito bem a própria fatia. No Brasil, o privilégio costuma chegar ao debate vestido de direito adquirido e acompanhado de uma bancada. Também seria imprudente prometer juros baixos por simples vontade presidencial. Uma trajetória fiscal crível poderia contribuir para criar condições mais favoráveis. Pressões sobre o Banco Central, porém, poderiam corroer a confiança que o governo necessita construir. Credibilidade demora a amadurecer e pode evaporar numa tarde. Se o real se valorizasse, haveria alívio no custo de produtos e insumos importados, com possível benefício para a inflação. Ao mesmo tempo, setores exportadores poderiam enfrentar dificuldades. O câmbio não distribui seus efeitos igualmente. E nenhum presidente governa isolado das decisões americanas, dos conflitos externos e do apetite mundial ao risco. O resultado depende de sua capacidade de transformar expectativas em instituições previsíveis, contas sustentáveis e investimento que gere produtividade e emprego. A cobrança deve começar pelos próprios apoiadores. Dar um voto de confiança não obriga ninguém a conceder um cheque em branco. Segurança jurídica exige regras que também protejam adversários; responsabilidade fiscal exige coragem para contrariar aliados. O Brasil conhece a cerimônia: a cada mandato, renovam-se as esperanças, mas os interesses de sempre já têm lugar à mesa. Um novo ciclo começa quando esses interesses também partilham a conta.
Wagner Gomes – Articulista











