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Entre moedas e impérios: o poder em mutação

Paulo César de Oliveira
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Wagner Gomes

Há algumas décadas, o mundo acreditava na eternidade do dólar. Era quase um dogma: bastava emitir e o planeta obedecia. Os Estados Unidos financiaram seu modo de vida com a fé dos outros. A China, por sua vez, cresceu fabricando os sonhos que o americano comprava a crédito. Essa simbiose entre o consumo de um e o suor do outro foi o motor da globalização. Mas o feitiço começou a se desfazer. Quando Trump decidiu “corrigir os desequilíbrios” com tarifas, o império deu um tiro no espelho — deixou de confiar nas regras que ele próprio escreveu. Desde então, a engrenagem do comércio global range. A confiança – esse ativo invisível – começou a evaporar.

A hegemonia americana não acabará num colapso, mas num vazamento contínuo. Impérios não quebram, eles perdem crédito. O dólar ainda reina, mas seu trono está corroído. Os cofres dos bancos centrais, antes devotos da fé americana, começaram a diversificar a devoção. De 71% em 2000 para cerca de 58% hoje, o dólar encolhe nas reservas globais. O ouro, antes relíquia bárbara, virou refúgio racional. A compra do metal em 2023 foi a maior desde a década de 1970. O yuan, o euro e moedas regionais somam-se ao novo politeísmo monetário – um mundo que ora a muitos deuses, em vários templos.

Mas há outros vetores corroendo o mito verde. O risco geopolítico alimenta tanto as vocações expansionistas quanto os separatismos internos. A China redefine as rotas do comércio e reconstrói cadeias produtivas à sua imagem. O papel de polícia do mundo está em retração: a América, cansada e endividada, recua para o próprio quintal, tentando disciplinar uma vizinhança cada vez menos obediente. No tabuleiro multipolar, os Estados Unidos voltam-se contra os que tentam escapar de seu raio de influência, da Venezuela ao México, enquanto o Oriente Médio se reordena sem pedir bênção a Washington. É o preço de quem já não dita, apenas reage.

A questão fiscal americana agrava o quadro. A aversão política e moral aos Estados Unidos, amplificada por sanções unilaterais e guerras infindas, reduz o apetite dos compradores de seus títulos. Com menos demanda, o Tesouro se vê obrigado a pagar mais caro para se financiar. A curva longa de juros se inclina, e o preço nominal dos ativos despenca. A montanha de dívida, que sempre pareceu um detalhe contábil, transforma-se em bomba-relógio financeira. O dólar não morrerá; mas envelhecerá. Continuará dominante, porém sem monopólio. O que está em curso é um ajuste histórico: a transição de uma fé monetária absoluta para um ceticismo distributivo.

A confiança deixou de ser universal para se tornar seletiva. Os próximos anos cobrarão a conta dos anos anteriores. O capital seguirá o instinto animal a ele inerente: menos ideologia, mais segurança. Os países que entenderem essa virada, preservando instituições sólidas e contas públicas críveis, atrairão o investimento que foge do risco. Os demais continuarão culpando o “sistema injusto”, enquanto o sistema muda de endereço. O mundo pós-dólar não é o fim da globalização, mas o início de sua maioridade: menos fé, mais prudência. E, como ensinava Delfim Netto, “na economia, quem perde a confiança, perde o poder — e o resto é só contabilidade”. Se bem que Delfim também dizia que “os números, sob tortura, confessam qualquer coisa”.

Wagner Gomes é articulista e escreve aos sábados para este blog

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