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Do discurso à brutalidade: a nova franqueza do poder

Paulo César de Oliveira
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Nicolas Maduro

O episódio envolvendo a Venezuela expõe menos uma ruptura com a ordem internacional do pós-guerra do que uma mudança de estilo. A força sempre esteve lá. A novidade é o abandono do disfarce. O que antes exigia rituais diplomáticos, justificativas jurídicas e apelos à “comunidade internacional” agora se apresenta sem pudor: interesse nacional, ponto final. O debate que se seguiu ao sequestro de Nicolás Maduro (foto: Adem Altan/AFP) pelos Estados Unidos errou o foco. Não se trata da troca de regras por força bruta, mas da passagem da hipocrisia ao cinismo. As grandes potências continuam a agir como sempre agiram — só não fazem mais questão de parecer civilizadas. O sistema que emerge é hierárquico e explícito. No topo, os Estados militarmente dominantes, livres para agir de forma unilateral desde que evitem choques diretos entre si. Na base, países frágeis, expostos ao arbítrio e à pilhagem. No meio, nações que ainda simulam o velho jogo das mediações, porque não têm poder para ignorá-lo. Líderes como Trump não apenas interpretam essa realidade: estão redesenhando-a à sua imagem — mais crua, mais direta, menos envergonhada. 

Quando o xerife abandona a lei

Não existe polícia entre Estados soberanos. Existe diplomacia — ou guerra. Qualquer incursão armada em território alheio, ainda que travestida de combate ao crime, é agressão internacional. A encenação construída pelo governo Trump tinha um alvo claro: driblar os limites legais internos. Ao chamar de “ação policial” o que cheirava a intervenção, o Executivo escaparia das amarras impostas a atos de guerra. O truque é jurídico, não moral. Esse cinismo dialoga com o clima político que alimenta a extrema direita: sensação de declínio, instituições falhas, economia excludente e, ao fundo, a crise que poucos querem nomear — o colapso ambiental. O medo do futuro é deslocado para inimigos imediatos. A força vira atalho. Nesse mundo mais hostil, o velho verniz liberal perde utilidade. Nativismo, fechamento e nova rapinagem externa passam a ser vendáveis como autopreservação. Trump captou o recado: parte do eleitorado quer músculos à mostra e franqueza brutal. Não um xerife da lei, mas um predador assumido.

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