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A noz-moscada e a política brasileira 

Paulo César de Oliveira
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Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 
Wagner Gomes 

Um amigo antigo — antigo no afeto, não na ferrugem — resumiu a esquerda brasileira numa imagem improvável: cérebro de noz-moscada. Não pedi nota de rodapé. Preferi o diagnóstico. Porque a metáfora não é apenas espirituosa: ela explica o desastre. A noz-moscada é pequena, dura, aromática. Serve para temperar, não para alimentar. Exala presença, mas não sustenta refeição. Assim funciona hoje o pensamento político nacional: muito cheiro moral, pouca substância intelectual. Opiniões fortes, ideias fracas. Convicções raladas na hora, conforme o prato do dia. O raciocínio virou pó fino. Espalha, perfuma o ambiente e some. Governa-se por frases de efeito, não por projetos. Decide-se por aplauso imediato, não por consequência duradoura. A política virou um concurso de aromas — quem cheira (ou seria quem fede?) mais forte, não quem pensa melhor. É nesse ponto que entra o tempero bíblico, sempre reinterpretado conforme a conveniência. A frase “Mateus, primeiro os teus” existe, sim. No contexto, significava justiça elementar: ao cobrador de impostos, exigia-se trato correto com os seus, sem abuso, sem rapina, sem esperteza. Priorizar os próximos como exercício de responsabilidade, não como licença para pilhagem. No Brasil, o cérebro de noz-moscada fez o resto. O corpo político deu seu próprio “entendimento”: primeiro os meus interesses. Depois, se sobrar algo, discute-se o coletivo. A máxima moral virou salvo-conduto para a locupletação. O que era limite virou método. O que era exceção virou cultura. E a epidemia se espalhou. Executivo, Legislativo e Judiciário — ninguém escapou da infecção aromática. Cada poder exala virtude, mas pratica autoproteção. Discursa sobre o bem comum enquanto ajusta o próprio benefício. Tudo muito perfumado, tudo muito pequeno. Direita e esquerda disputam quem segura o ralador. Acusam-se mutuamente de miolos de passarinho, sem notar que ambos operam com o mesmo cérebro desidratado: curto, vaidoso, autocentrado. A ética vira incenso. A coerência, artigo de luxo. O interesse público, figurante. A tragédia é simples: noz-moscada em excesso amarga. Política também. Quando tudo vira cheiro e nada vira alimento, o cidadão aprende a desconfiar — e tapa o nariz. Democracia não se sustenta de aroma. Precisa de substância. O problema é que, por aqui, ainda confundimos tempero com refeição. (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Wagner Gomes – Articulista 

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