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A Tal Felicidade Clandestina

Paulo César de Oliveira
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Renata Araújo

Introdução

Este texto nasce de uma madrugada, de um encontro com Clarice Lispector e de um instante de despertar.
É um convite a quem sente que adia a própria felicidade, mesmo quando ela já está ao alcance das mãos.
Ao longo da leitura, talvez você reconheça silêncios, gestos e resistências íntimas — e se permita olhar com mais coragem para seus próprios desejos.

Sabe quando a noite chega e, em um pequeno intervalo de tempo, você se entrega ao sono? Saí da vigília exausta daqueles que permanecem acordados, dormindo obnubilados, sem se permitir sair do controle. Esse foi o pequeno descanso que me concedi antes de abrir os olhos na escuridão em busca da luz do abajur. Respirei melhor ao reconhecer novamente o contorno do quarto e a distância dos objetos que me cercavam.

Acredito que essa vivência não seja apenas minha. Muitos de nós criamos artimanhas para recuperar o sono. Entre as minhas, escolhi pegar o livro Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. Toda vez que leio Clarice, sou causada por ela: minha cabeça fervilha e outro texto começa a nascer do que li e senti.

Clarice conta a história de uma menina descrita como “gorda, baixa e de cabelos excessivamente crespos”. Apesar disso, possuía um grande privilégio: seu pai era dono de uma livraria. As outras crianças, devoradoras de livros, esperavam ganhar livros dela nos aniversários, mas recebiam apenas cartões-postais da loja.

Um dia, anunciou-se — quase como tortura — que ela possuía As Reinações de Narizinho, livro fortemente desejado e caro demais para a protagonista. O empréstimo foi prometido, e a menina ia buscá-lo diariamente. Sempre surgia uma desculpa. A frustração se repetia, mas ela retornava, alimentando a esperança.

Até que a mãe percebeu a situação e permitiu que o livro fosse levado pelo tempo que quisesse. Ainda assim, a alegria não veio de imediato. A menina saiu devagar, segurando o livro contra o peito. Em casa, adiou a leitura, fingiu que não o tinha. Clarice resume tudo na frase essencial: “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”

Foi aí que associei a história à vida. Quantos de nós adiamos nossos desejos? Quantos somos clandestinos da própria felicidade, evitando encará-la de frente? Houve um tempo em que deixei meus porquês mais fortes que meu encontro com a alegria. Sabemos que a felicidade são intervalos, mas ainda assim resistimos a ela.

Acordei. É hora de seguir em frente.

Renata Araújo – Psicanalista, escritora e cantora.

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