Wagner Gomes
A política moderna opera num teatro moral onde líderes são transformados em santos ou demônios. A idolatria pinta o governante como salvador nacional. A aversão extrema faz o inverso: transforma o adversário em ameaça existencial. Não são opostos, são irmãos siameses: dispensam análise, exigem fé e convertem disputa institucional em liturgia. O devoto não vota — peregrina. Seu líder não é gestor, é mito. Questioná-lo é heresia; responsabilizá-lo, traição. O cidadão transfere autonomia em troca de sentido: idolatra para fugir do caos do mundo real. O ídolo deixa de ser representante e vira avatar. Do outro lado, o inimigo absoluto cumpre função simétrica: concentra todo o mal político. Não é adversário, é praga. Seu fracasso não é político, é moral. A purgação do vilão serve como purificação coletiva. O debate vira exorcismo. Nesse ambiente, a dialética morre. O sectarismo instala-se como dogma e a política se torna duelo teológico, onde cada lado reivindica monopólio da virtude e recusa diálogo por princípio. A esfera pública vira ritual de confirmação identitária, não arena de ideias. Mas há um terceiro personagem: o eleitor sem devoção. Não idolatra, não demoniza, não peregrina. É o pêndulo invisível que define eleições, não por virtude, mas porque não está preso emocionalmente ao resultado. Troca de lado quando o ídolo envelhece, quando o inimigo exagera, quando a retórica religiosa cansa. Não ama ninguém — contrata. Participa como consumidor: avalia o serviço, cancela quando piora. É ele que transforma o ciclo político num vaivém: o salvador sobe, vira vilão, e outro salvador ocupa o púlpito. O centro emocional da política são os extremos; o centro decisório são os desafeiçoados. Essa parcela do eleitorado alimenta ambos os polos enquanto tenta escapar deles: ora sanciona o líder carismático, ora absolve o vilão derrotado, perpetuando o teatro moral da idolatria e da aversão. São o metrônomo — o marcador rítmico da alternância — da democracia polarizada. Não são racionais; são pragmáticos. Sua frieza pode funcionar como freio institucional ou combustível para novos incendiários. Não moderam o sistema: apenas rotacionam seus protagonistas. A democracia pulsa ao ritmo desse movimento: devotos inflamam, inimigos denunciam, e o eleitor desafeiçoado entrega o poder — e logo o recolhe. O país não avança por consenso; apenas troca de fé. A política não precisa de apóstolos, precisa de adultos. Enquanto tratarmos líderes como divindades ou pragas, viveremos em missa permanente, com o pêndulo balançando não em busca de equilíbrio, mas de novo profeta. (Foto reprodução TSE)










