O diz- que- me- diz dos primeiros dias do Governo Bolsonaro deixa claro que o palanque se instalou no Planalto. O que pensávamos ser apenas conversa de campanha vai tomando ares de projeto de governo. Um projeto ousado que propõe uma manobra radical no país, conhecida no meio automobilístico como “cavalo de pau”. Querem dar um novo rumo ao país, não apenas em sua economia, mas em tudo, até mesmo em seus conceitos morais. Sem dúvida uma proposta arriscada. O “cavalo de pau” é sempre uma manobra arriscada, que pode provocar o capotamento do veículo. O que andam fazendo é mais do que um simples projeto de governo. É um projeto de poder, que demanda tempo, muito tempo aliás, tal a sua complexidade. A propósito, nem bem o governo começou – pode-se dizer até que nem começou- e já tem auxiliar do presidente dizendo que Moro pode ser uma opção para 2022 ou mesmo para 2026, sinalizando que Bolsonaro pretende, se tiver sucesso, a reeleição. Não é muito diferente do projeto que o PT vinha tentando. Até aqui, as ações ensaiadas estão apenas com os sinais de direção trocados. Outra forte característica dos primeiros dias de governo é a voluntariedade de alguns de seus membros. Fazem declarações, afirmam mudanças, como se tudo dependesse apenas de seus quereres. Tratam os setores de que cuidarão como se não existisse um contexto, uma sociedade. Propõem mudanças inverossímeis, esquecendo que são vários os Brasis a serem mudados, cada um com uma realidade. O próprio presidente tem escorregado na tentação de dar opiniões impensadas sobre diversos assuntos, esquecendo-se de que não é mais um deputado do baixo clero. Hoje sua opinião, qualquer que seja, sobre qualquer assunto, tem consequências, inclusive nas relações internacionais. Bolsonaro precisa vestir a roupa e a postura de presidente de um país que tem influência mundial. Lembrar-se de que, pela sua importância, já não pode mais ficar nas redes sociais, como um adolescente, falando o que vem à cabeça, e batendo boca com adversários. Está se expondo à toa, correndo riscos desnecessários. Afinal, quem fala o que quer, costuma ouvir o que não quer, diz a sabedoria popular. Bolsonaro foi eleito como esperança. Despertou paixões próprias de lideranças carismáticas e vai precisar, e muito, desta condição de mito para fazer tudo aquilo o que o povo espera dele. Não tem o direito de fraquejar nem de permitir que seus auxiliares, ou os que lhe são próximos, ou se julgam assim, deitem falação desnecessária, criando um ambiente de confronto que não leva a nada, ou melhor, que levam à perda de credibilidade e de estabilidade de um governo que está fazendo agora uma semana. Uma semana, das 208 que o governo terá, perdida com declarações sem qualquer interesse. É hora de começar a arrumar a casa. Todo início de governo é assim mesmo, até que as pessoas reconheçam seus limites. O ex-governador Hélio Garcia, que conhecia como poucos a alma dos mineiros e os meandros da política, dizia que início de governo é como a arrumação de caminhão de porco. Vai-se colocando os bichinhos do caminhão e eles, incomodados, aprontam uma gritaria. O caminhão começa a andar, tudo vai ficando mais tranquilo, cada um encontra seu lugar, seu cantinho, e vai, calmo e calado, até o final da viagem. Desde, é claro, que o motorista não dê muitos golpes de direção e freadas bruscas.