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Quando o trabalho deixa de ser humano 

Paulo César de Oliveira
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Wagner Gomes 

A previsão de Danilo McGarry(foto reprodução Champions Speakers), especialista global em inteligência artificial, é provocadora e simbólica: dentro de quinze anos, restarão apenas cem tipos de empregos no mundo. Segundo McGarry, os postos de trabalho se dividirão em três grandes categorias: os que constroem, os que ensinam e os que utilizam a IA. É a simplificação máxima da economia do conhecimento — um retorno, em nova forma, à divisão clássica entre quem cria, quem transmite e quem aplica. A revolução tecnológica em curso não destrói o trabalho, mas redefine sua natureza. Máquinas já escrevem relatórios, elaboram diagnósticos, constroem códigos e até compõem músicas. O que antes exigia anos de estudo e experiência, hoje pode ser executado por sistemas que aprendem sozinhos. O trabalhador do futuro não competirá com a máquina, mas dialogará com ela. A criatividade, a empatia e a capacidade de formular perguntas relevantes talvez se tornem mais valiosas que o domínio técnico. No entanto, o problema central não é tecnológico — é social. Se poucos controlarem as ferramentas da inteligência artificial, as desigualdades tenderão a se aprofundar. O mercado de trabalho já se polariza entre os que dominam o código e os que são dominados por ele. Dados recentes do Fórum Econômico Mundial apontam que mais de 40% das habilidades profissionais atuais se tornarão obsoletas até o fim da década. O risco é a formação de uma elite cognitiva global e de uma massa economicamente irrelevante, incapaz de se inserir nas novas cadeias produtivas. O desafio, portanto, será educacional e ético. A escola do século XXI ainda prepara alunos para um mundo que está desaparecendo. A alfabetização digital precisa ir além do uso de ferramentas: deve formar cidadãos capazes de compreender o impacto dos algoritmos sobre a política, o emprego e a própria democracia. O conceito de “carreira” — estável, linear, previsível — tende a ceder lugar a trajetórias fluidas, baseadas em aprendizado contínuo e reinvenção. A história do trabalho é, em última instância, a história da adaptação humana. A Revolução Industrial substituiu o artesão pela máquina a vapor; a revolução digital substituiu o operador pelo software. Agora, a revolução da IA promete substituir o raciocínio mecânico pelo raciocínio estatístico das máquinas. O que resta ao homem é reafirmar o que o torna singular: a capacidade de imaginar, questionar e atribuir sentido ao que faz. O futuro não será o fim do trabalho, mas o início de um novo pacto entre o homem e a tecnologia. Os cem empregos de McGarry talvez não representem a escassez, e sim a síntese de um mundo onde pensar e criar voltam a ser o verdadeiro trabalho. O desafio é garantir que todos tenham acesso a essa nova forma de produzir — e, sobretudo, de existir. 

Wagner Gomes – Articulista

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