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Zeina Latif: cenário atual pode se tornar uma tempestade perfeita

Paulo César de Oliveira
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Zeina Latif (foto: XP Investimentos/ Divulgação)

Em ano eleitoral, a economia ganha um destaque maior. Se o governo vai bem, a resposta do eleitor também pode ser positiva. Mas o cenário internacional tem afetado não só a economia brasileira, como mundial. Além disso, o empresariado brasileiro reclama que as altas taxas de juros inibem os investimentos. É um quadro que pode formar uma “tempestade perfeita”, segundo a economista Zeina Latif (foto: XP Investimentos/ Divulgação).

A economia brasileira sente os efeitos do cenário internacional e dos problemas internos, como juros altos. Como contornar esses problemas? 

Nós não podemos subestimar a capacidade do presidente Lula de transformar limão em limonada. Toda a história, por exemplo, do tarifaço, ele conseguiu um resultado na opinião pública, que foi satisfatório e no final, caiu o tarifaço também. Mas realmente, é um cenário para o atual governo, perigoso e que pode ter aí uma combinação de situações que formam a tempestade perfeita. A depender da extensão dessa guerra, porque no momento, tem muitos fatores que blindam a economia. Uma guerra mais prolongada e isso por si só já traga, mesmo que seja uma piora que não seja expressiva, mas piora da inflação, com economia que já está desacelerando, com alguns setores sentindo um quadro pior, o Banco Central demorando mais no corte dos juros, tudo isso acaba azedando a confiança do consumidor. Um ponto que eu acho importante: o ano já começou com menos espaço para a economia ajudar o presidente Lula na campanha. 

Por quê?

Porque tem muito efeito de juros ainda se materializando. É claro que está longe de se falar em um ambiente recessivo. A gente só viu recessão no país quando outras crises estavam acontecendo muitos colocaram a culpa no Banco Central. Não é o Banco Central. Quando a gente olha quando estava tendo recessão, vemos que tinha uma crise global ou toda a crise do governo Dilma, essas crises aconteceram e não era por causa da Selic. Não. É uma desaceleração que pode se mostrar mais forte. Não tem mais ganhos por aí. Você pode falar que tem as políticas do governo, tem muita coisa que foi anunciada, tem coisa que o governo está para colher os frutos agora, como, por exemplo, a tabela do imposto de renda. Mas sinceramente, eu acho que o número de beneficiados não é forte o suficiente. São políticas que se faz aqui, se faz ali, mas que não são fortes suficientes para dar conta de uma situação mais difícil na economia. Vamos puxar uma, por exemplo, no governo Bolsonaro. Não tenho dúvida que a inflação foi um fator que machucou a competitividade do Bolsonaro. Ele foi lá, aumentou o auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. Então, realmente um quadro é muito desafiador, porque notícia boa, ajuda menos o presidente do que notícia ruim atrapalha. É muito assimétrico. Quando as coisas vão bem, o benefício para o presidente não é tanto, mas quando vai mal, machuca mais. Então é uma equação com muitos riscos. A depender da extensão dessa crise por exemplo, quando a gente pensa no agro, essa guerra tem um potencial grande para machucar o agro. Por hora não, colheita, o grosso já foi. Então tem fatores que atenuam, mas vai estendendo, vai estendendo, e isso vai adicionando riscos para o Lula. Então acho que a tendência é realmente o presidente adotar um tom muito cauteloso, porque além disso tem, a discussão do que mais ele pode trazer, até porque vai ter uma receita de dividendos de impostos por causa da alta do petróleo e isso traz arrecadação para o governo. Então pode ser que ele aproveite para fazer ajustes em alguma política social. Tem um mal-estar grande e o presidente vai ter que ser muito cauteloso na campanha e nas suas falas, por que se as atitudes do governo no período de campanha gerarem mais volatilidade no mercado? Vai ser muito contra. Vai prejudicar muito a campanha. Será muito contraproducente, porque a expectativa inflacionária sobe, amarra as mãos do Banco Central e outras reações mais do mercado. Eu acho que o presidente tem um quadro que é desafiador e ficou ainda mais desafiador. Já era um quadro um desafiador e, obviamente, que tem um fator agora, porque na hora que aumenta preço não adianta falar que foi por causa do quadro externo. As pessoas percebem a piora e pronto. Geram insatisfação. 

O presidente Lula estava pressionando muito para o BC reduzir os juros. Parece que não tanto agora. Mas é uma situação difícil para o BC?

Na verdade, não é essa pressão toda não. Tem muito de retórica. Mas não é tudo isso. Porque se fosse isso, juros, não estava 15%. Quer dizer, agora caiu para 14,75%. Essa hipótese, não se mostrou correta.  Dizer que o presidente Lula politizou o tema? Sim, ele politizou. Mas dizer que houve pressão no Banco Central? Não sei que pressão é essa que a Selic foi para 15%. Os fatos negam essa hipótese, porque retórica de político é uma coisa, o “vamos ver” é outra. A vida real é outra.

Mas você acha que tem margem para a Selic cair de forma mais consistente?

Sim. O Banco Central mede o grau de aquecimento da economia. Nós não estamos mais com a economia sobreaquecida. E tem outras forças que enfraquecem a economia, como a inadimplência elevada, agora vem mais isso, esse choque que vai ter impacto em alguns setores, como no agro. Então são fatores que vão enfraquecer mais a economia e a inflação tem uma regra de bolso, ela afeta o bolso da população. Não cabe ao Banco Central atuar para neutralizar o impacto nas bombas. Isso não. Esse é um efeito primário de um choque. O efeito primário de um choque se aceita, você não vai tentar combater. O que deve ser avaliado é se, uma vez que tem esse choque nas bombas de combustíveis, temos que ver qual será o tamanho disso. Mas a tendência é da Petrobras segurar um pouco os preçosJá está segurando bastante. Uma vez que isso acontece, temos que ver qual o efeito na cadeia. Se o efeito na cadeia for grande, se produtos vão ficar mais caros. Se isso começa a ficar forte, denotando que a economia está mais aquecida do que se imaginava, aí o Banco Central tem que reavaliar. Tem um grau de incerteza, que é natural o Banco Central ir com calma nesse processo. Pessoalmente, acho que não precisaria tanta calma. Mas sim, vejo espaço para cortar. A própria comunicação do Banco Central não foi no sentido de “olha, não tem espaço nenhum para a corte”. Não foi isso, foi mais um “olha, a gente vai continuar cortando. Só não sei em que velocidade e qual a magnitude, qual o orçamento final”. Para mim, seria uma visão equivocada interromper um processo agora.  

Sueli Cotta

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