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Nostradamus não errou: fomos nós que não crescemos

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 11 de abril de 2026
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nostradamus (foto Reprodução/Pexels)

Wagner Gomes

O mundo moderno faz um ritual curioso: a cada tragédia volta-se ao século XVI para perguntar a um astrólogo francês o que acontecerá com a humanidade. Nostradamus (foto Reprodução/Pexels)  vira oráculo oficial da ansiedade global. Guerras, colapsos, líderes imprevisíveis, crises financeiras, catástrofes naturais, inteligência artificial ameaçando o emprego — tudo isso aparece como “profecia”. Na prática, porém, é apenas um espelho: as interpretações dizem mais sobre nossos medos do que sobre qualquer visão sobrenatural. As quadras falam de sangue, enxames, fogos no Oriente, decadência do Ocidente, caos prolongado. Impressiona — até lembrarmos que esses símbolos servem para quase qualquer período da história. Sempre existiram conflitos, tensões geopolíticas, ciclos econômicos turbulentos e transformações tecnológicas. Nostradamus “prevê” porque fala de coisas eternamente humanas: violência, ambição, inveja, fome de poder, desequilíbrio, medo do desconhecido. Não é adivinhação; é universalidade vaga. O fascínio persiste porque vivemos tempos nervosos. Mudanças climáticas aceleram eventos extremos; economias frágeis convivem com dívidas crescentes; democracias enfrentam populismos e autoritarismos; potências se encaram com desconfiança; a tecnologia avança em velocidade inversamente proporcional a nossa capacidade ética de lidar com ela. Em meio a tudo isso, buscar conforto num “profeta” é tentador, mas enganoso. Ele oferece narrativa, sentido e — ironicamente — uma dose de alívio: “se estava escrito, não é culpa nossa”. Mas é exatamente o contrário. O desconforto contemporâneo nasce do fato de que não há destino traçado. Há responsabilidade. Não é Marte movendo estrelas — são governos tomando decisões ruins, corporações explorando limites, sociedades divididas e lideranças incapazes de enxergar além do cálculo eleitoral, numa era em que o improviso travestido de estratégia — tão visível em figuras como Donald Trump — transforma a política em espetáculo imediato e reduz o futuro a um detalhe incômodo. O futuro não está inscrito em versos enigmáticos, está sendo escrito agora, com orçamento público, diplomacia, ciência, educação, cultura política e escolhas coletivas. Nostradamus sobrevive como espetáculo. Vende mistério, entretém, alimenta manchetes e cliques. Já nossos problemas são menos poéticos: demandam trabalho, sensatez, coordenação internacional e algum grau de maturidade civilizatória. A verdadeira profecia é banal e difícil: se continuarmos apostando mais em medo do que em responsabilidade, não precisaremos de vidente nenhum para prever o desfecho. Em resumo, Nostradamus não explica o presente nem ilumina o futuro. Apenas nos lembra, mesmo sem querer, de algo incômodo: o planeta não espera profetas; espera adultos. O vate só tem sentido para quem queira um reforço a suas próprias “verdades”.

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