Wagner Gomes
O aparelhamento cultural brasileiro não se fez por decreto nem por gestos ostensivos de força. Fez-se por acolhimento. Primeiro veio o abrigo simbólico, depois o hábito confortável, por fim a naturalização do consenso. A classe artística e vastos setores das universidades públicas aprenderam a respirar num ecossistema em que a discordância cobra pedágio alto e o alinhamento oferece circulação, financiamento e prestígio. A insensata paranoia dos que querem pastorear a ocupação de corações e mentes está aniquilando com a vida acadêmica e cerceando a pluralidade de opiniões. Não se trata da censura bruta, da tesoura em punho, mas de algo mais eficaz: a adaptação ambiental, onde o livre pensar não é proibido — é educado a não incomodar. Nesse terreno, o pensamento crítico aprende a falar baixo, a escolher temas seguros, a calibrar o tom para não ferir a sensibilidade do poder de turno. À esquerda, consolidou-se uma gramática moral que confunde virtude com obediência e pertencimento com lucidez histórica. O ideário se impõe menos como argumento do que como clima: quem respira fora do padrão é tratado como anacronismo ou desvio ético. O pensamento não é refutado — é deslegitimado. Se esse processo guarda semelhança com o velho projeto gramsciano de hegemonia cultural — paciente, pedagógico, voltado à ocupação lenta das consciências —, à extrema direita não corresponde uma filosofia simétrica. O que emerge ali é um decisionismo identitário, reativo e abrupto. A cultura deixa de ser espaço de elaboração e vira trincheira. A verdade não nasce do conflito de ideias, mas da autoridade que decide; a obra vale menos pelo que interroga do que pelo lado que escolhe; o ressentimento substitui a reflexão como motor simbólico. Onde um extremo constrói hegemonia pelo conforto moral, o outro tenta impor ordem pela polarização. Ambos se alimentam mutuamente. Um legitima o outro como ameaça necessária. Mudam as bandeiras, preservam os corredores. O resultado é um campo cultural sitiado, onde a criação vira senha ideológica e o ensino, correia de transmissão de convicções previamente embaladas. A arte, que deveria ser fratura e pergunta, transforma-se em vitrine de certezas. O pensamento crítico, cansado de lutar contra o clima, opta pela prudência estética, pela adaptação preventiva, pelo silêncio funcional. O antídoto a esse empobrecimento não está no retorno nostálgico a uma neutralidade impossível, nem na vitória de um polo sobre o outro, mas numa dialética responsável, capaz de reconhecer o conflito sem absolutizá-lo. Uma cultura viva não elimina tensões; organiza-as. É do atrito entre convicções que nasce o pensamento adulto, aquele que não se satisfaz com dogmas nem se deixa capturar por trincheiras morais. A civilização avança quando aceita que ideias rivais podem coexistir sob contratos comuns — regras, instituições, limites —, que garantam o dissenso sem convertê-lo em guerra. Fora disso, resta apenas a alternância de hegemonias ressentidas, cada qual certa de sua virtude. O desafio civilizatório, hoje, é simples e difícil: reaprender a discordar sem silenciar, conviver sem submeter, contrapor sem ofender (ou ser ofendido), pensar sem pedir licença. (Foto reprodução premium Pinterest)
Wagner Gomes – Articulista










