Wagner Gomes
Olhe para a Praça dos Três Poderes e você entende por que tanta gente anda com o pé atrás com a democracia brasileira. Nenhum prédio ali sai ileso. O Executivo volta a conviver com o fantasma mais corrosivo de seus governos: suspeitas de corrupção perto demais do Planalto. O caso que tangencia o filho do presidente reacende memórias recentes e cobra algo simples e duro: explicação clara, imediata, convincente. Credibilidade de chefe de Estado não combina com sombra. No Congresso, a crise não é episódio; é hábito. Bilhões em emendas distribuídas com transparência limitada e lógica nem sempre pública transformaram o Orçamento num feudo político. Soma-se a isso o velho instinto corporativo, a vontade recorrente de criar blindagens legais para si mesmos e alhures. Representação popular virou, muitas vezes, proteção de grupo. E o Supremo, que deveria ser o último pilar de confiança, atravessa talvez a pior turbulência de toda sua história – passada, presente e futura. Expansão incontrolável de poder, decisões que invadem áreas dos outros Poderes, ministros que se aproximam demais de interesses privados, episódios que pairam e não são respondidos com a rapidez que o momento exige. Conflitos e suspeições que apenas seus Ministros não veem. Justiça não é só fazer; é parecer justa. Sem isso, racha no meio. Os poderes, de há muito, são exercidos por personagens desbridadas. Diante desse cenário, o desalento do cidadão é compreensível. Mas aqui aparece a armadilha: descrença total é combustível de aventureiro. Quem sonha com “soluções mágicas” adora ver a democracia desacreditada. Já vimos esse filme ao final do governo Dilma, quando ganharam eco os descontos indevidos de empréstimos consignados nas pensões e aposentadorias do INSS, agora ressuscitados em nova roupagem. Terminou mal. Instituições não são perfeitas — nunca foram —, mas são o que temos para evitar o pior. Não se conserta a República demolindo-a. Conserta-se cobrando, participando, votando melhor, exigindo transparência, fortalecendo quem fiscaliza, incluindo a imprensa livre. A sociedade não pode virar plateia cínica; precisa virar protagonista crítica. Ao mesmo tempo, os Poderes precisam parar de testar a paciência do país. O Executivo tem de governar com exemplo, o Congresso com responsabilidade pública, o Judiciário com limite e sobriedade. Democracia não quebra de repente. Ela se desgasta aos poucos, até que um dia alguém empurra. Convém não dar nem facilitar esse empurrão. ( Foto Roberto Castro/MTur.)
Wagner Gomes – Articulista











