Wagner Gomes
Há momentos em que a História não se repete: apenas troca de roupa. A “derrama” colonial — aquela sangria oficializada que sugava o ouro das Minas Gerais para sustentar luxos além-mar — parecia peça de museu. Parecia. Hoje, a carga tributária brasileira é sua herdeira legítima, vestida com terno burocrático, linguagem técnica e aura de inevitabilidade. Com um detalhe não desprezível: nosso “quinto” é maior do que o antigo. Trocaram os soldados pela Receita, as espadas pelo DARF, o pelourinho pela multa. O espírito é o mesmo: o Estado exige; o cidadão se explica; e paga! Na colônia, a derrama era brutal, explícita, pedagógica na crueldade. Hoje, somos refinadamente torturados. A mordida vem em parcelas invisíveis, discretas, silenciosas — e permanentes. Tomemos um assalariado típico da faixa de 27,5% do IRPF. No papel, o inferno parece organizado. Na vida real, ele trabalha cerca de 75 dias por ano somente para o Imposto de Renda. Não satisfeito, enfrenta ainda a taxação invisível do consumo: ICMS, PIS, Cofins, ISS — o alfabeto da gula fiscal. Isso representa mais 30 dias de trabalho no ano só para pagar o que está embutido no preço do pão, da conta de luz, do remédio, do supermercado. Somando? Um brasileiro na faixa máxima do IR trabalha cerca de 100 dias por ano para pagar imposto de renda — e, somando as demais mordidas (INSS, por exemplo), quase metade do ano para sustentar o Estado. A derrama mudou de uniforme, mas continua cobrando diariamente seu quinhão. Como veem, no mínimo cinco meses de vida cedidos ao Estado antes de começar a sustentar a própria existência. Se antes a Coroa portuguesa sugava o Brasil para manter um império cansado, hoje governos de todas as cores nos sugam para sustentarum Estado obeso, caro, lento, sonolento, paquidérmico e frequentemente indiferente. O brasileiro virou contribuinte compulsório de uma máquina que cobra como metrópole colonial e entrega como capitania hereditária. A tragédia é moral: naturalizamos a derrama contemporânea. Chamamos de “carga”, como se carregar correntes fosse vocação nacional. Trabalha-se para o Estado, depois — se sobrar fôlego — trabalha-se para viver. Mas o país que suportou pelourinhos também soube fazer Inconfidência. Talvez o futuro dependa disso: trocar resignação por lucidez e exigir o óbvio revolucionário — um Estado que custe menos, respeite mais e pare, enfim, de tratar seu povo como eterna mina de exploração. Mas teríamos de deixar de ser meros “contribuintes” como espertamente nos chamam! Aliás, “contribuinte” é palavra de missa: sugere oferta voluntária, quase um dízimo cívico. Mas o IR, você sabe, não pede licença — passa o rodo. (Foto reprodução)











