Wagner Gomes
Há um instante — discreto como o entardecer — em que o ruído do mundo já não seduz. As luzes piscam, as vozes chamam, as taças tilintam… e, ainda assim, algo dentro de nós permanece imóvel, soberano.
Não é cansaço. É consciência. Equilíbrio, talvez.
A idade não nos rouba o brilho; ela o concentra, apurando o que importa. Lapida o excesso, decanta as ilusões, afina o ouvido para o essencial.Descobrimos que presença não é obrigação, que aplauso não é alimento, que multidão não é sinônimo de pertencimento. Muitas vezes, apenas uma forma disfarçada, talvez a mais dolorosa, de solidão.
Há uma coragem silenciosa em sair da festa antes que a alma se retire. Há uma elegância rara em dizer “não” sem culpa e “sim” sem barulho.Quem viveu o bastante aprende que não precisa caber em moldura alheia. Recusá-la é libertador.
Alguns chamam isso de isolamento. Eu chamo de soberania. Com o tempo, o coração deixa de correr atrás de espelhos e passa a buscar espinha dorsal. A pressa vira escolha.
A escolha vira liberdade.
E liberdade, quando madura, não grita. Ela sussurra com firmeza: “Não devo nada ao mundo além da minha verdade.”
Talvez doa admitir que demoramos a entender. Mas sabedoria não chega no início da estrada — ela nasce do pó nos sapatos, das quedas discretas, dos sustos das esquinas, dos aplausos vazios que um dia nos pareceram grandiosos. Aprendemos que ser gênio não é opção, mas não ser estulto, sim!
Envelhecer é voltar para casa sem mapa e, ainda assim, reconhecer a porta. É perceber que nunca foi sobre desistir do mundo — foi sobre deixar de se perder nele. E quando essa chave gira na fechadura do peito, não há saudade das antigas vitrines.
Porque chega uma estação da alma em que o desejo desaprende a urgência e passa apenas a contemplar. O mundo segue acendendo suas vitrines, distribuindo máscaras e convites dourados como quem tenta seduzir a noite — mas já não encontra em nós aquela antiga disposição de vestir fantasias para atravessar bailes que passaram por nós. Há uma nobreza quase litúrgica em abandonar a competição pelos refletores, em não disputar presença, em existir com a serenidade das montanhas: inteiras, silenciosas e suficientes. Talvez a mais alta forma de riqueza seja esta — deitar a cabeça no travesseiro sem precisar fugir de si mesmo. Há paz. Aquela paz indomável de quem já atravessou o ruído e escolheu, enfim, o próprio silêncio como morada. ((Imagem Magnific.com)
Wagner Gomes – Articulista










