Wagner Gomes
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil foi apresentado como resposta a práticas comerciais consideradas discriminatórias. As acusações envolvem barreiras ao etanol, proteção insuficiente à propriedade intelectual, fragilidades no combate à corrupção, questões ambientais, regras para plataformas digitais e até o funcionamento do Pix. Parte dessas críticas merece discussão. O Brasil convive com lentidão na concessão de patentes, problemas de fiscalização, insegurança regulatória e deficiências institucionais que não devem ser escondidas. Mas reconhecer falhas não significa aceitar qualquer punição. É justamente aí que a fundamentação americana começa a desmoronar.
O Pix, por exemplo, não é uma barreira comercial. É uma infraestrutura pública eficiente, aberta à participação de instituições nacionais e estrangeiras, que reduziu custos e incomodou empresas tradicionais de cartões e pagamentos. Chamar inovação de concorrência desleal apenas porque ela nasceu fora dos Estados Unidos é uma tese conveniente — e fraca. Mais grave é transformar decisões judiciais brasileiras e divergências sobre redes sociais em justificativa para taxar açúcar, roupas, máquinas, papel e outros produtos sem relação direta com essas controvérsias. A tarifa não corrige uma sentença, não melhora uma lei nem aperfeiçoa uma política ambiental. Apenas pressiona economicamente o país atingido.
A própria realidade comercial enfraquece a narrativa de que o Brasil estaria explorando os Estados Unidos. Os americanos mantêm expressivo superávit nas relações com o mercado brasileiro, sobretudo quando se incluem os serviços. Podem existir obstáculos setoriais, mas não há um desequilíbrio geral que justifique retaliação dessa magnitude. Aliás, qualquer retaliação, que só teria sentido na forma de resposta a uma ofensa. As exceções concedidas revelam a lógica da medida: produtos cuja taxação poderia provocar escassez, inflação ou prejuízo às empresas americanas foram preservados; aqueles cujo custo pode ser transferido ao exportador brasileiro ou ao consumidor permaneceram na lista. Não é defesa coerente do livre comércio. É protecionismo calculado e mal disfarçado.
Há ainda uma sombra política impossível de ignorar. A mistura de temas comerciais com disputas judiciais, plataformas digitais e interesses ideológicos demonstra que a tarifa foi concebida não apenas para negociar, mas para constranger. Donald Trump (foto Brendan Smialowski/ AFP) usa sua legislação interna como instrumento de pressão externa e transforma mercadorias em reféns de conflitos que, se existentes, deveriam ser resolvidos pela diplomacia ou por organismos multilaterais.
O Brasil deve contestar a medida, negociar com firmeza e recorrer às instâncias internacionais, evitando uma retaliação impensada que apenas encareça produtos e prejudique a própria economia. Algumas queixas americanas podem ter fundamento. O tarifaço, não. É desproporcional, politizado e intelectualmente incoerente. Não se trata de corrigir o comércio, mas de impor poder. A tarifa é apenas o uniforme com o qual se traveste a coerção. Por trás de tudo, existe alguém que se arvora em xerife do mundo.
Wagner Gomes – Articulista










