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A arte e seus encontros

Por Paulo César de Oliveira
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imagem ( foto arquivo Renata Araujo)

Renata Araújo 

Ela olhou, pelo andar de cima, o pátio da Escola Estadual Pedro II. Antes de entrar em cena, há um silêncio que invade, que percorre seus poros como sede necessária. Como concha margeando a beira-mar. Dá mais uma piscadela para o movimento já existente lá embaixo e se pergunta sobre o que está prestes a oferecer, convicta de que a arte só se realiza quando é verdadeira.

Respirou fundo, mantendo-se recolhida em seu tempo de escuta interna — ressoa em seus ouvidos o barulho do mar, do vento que sopra seus cabelos, do sol que toca sua pele de forma homogênea e da areia fina onde caminha lentamente. Passou mais uma vez o aquecimento vocal. O som saía sem pressa entre os lábios entreabertos. Lembrava-se insistentemente de seu poema Cantar: “Cantar é se adentrar. É buscar lá dentro o que pode ressoar fora.” Tinha-o como mantra e norte. Seu peito havia experimentado o ar entrar e sair sem cerimônia; o palco interno já era um lugar conhecido.

Desceu as escadas que levam ao pátio, pronta e consciente de sua doação. Degrau por degrau, havia subido e descido pelas notas musicais. Queria dançar com a voz. Ela se tornaria sua parceira, assim como faz com a própria carne na dança. O processo exigiu tempo de preparo, de passagem, de conhecimento, de permissão.

Ali embaixo, as pessoas assentadas pelas diversas mesas dispostas em um ambiente, por assim dizer, amplo, conversavam, se divertiam, bebiam, distribuíam sorrisos. E um desafio cruzou sua mente: como trazer aquele público para dividir as vozes e o sentimento?

Caminhou até o palco; conhecidos a abraçaram, acolheram-na. Respirou, fechou os olhos por um segundo e viu todo aquele pátio transformado em um grande teatro. As luzes, as cadeiras vermelhas, as cortinas que acabavam de se abrir. Cada canto pode virar cenário, depende de como você o encara. Passou pelas coxias, a luz acendeu. Posicionou-se no meio dos músicos, e uma pose inicial marcaria os primeiros acordes de La Vie en Rose. Sentiu o som atravessar seus ouvidos e sua voz chegar macia, mas com a imponência necessária.

Aos poucos, a plateia foi também abrindo espaço para a escuta. Algumas pessoas se tocaram com tamanha rapidez que já pareciam sintonizadas desde o início. Outras ainda sentiam um desconforto, talvez; ir ao encontro da arte exige desarmar-se. Manter-se defendido pode ser uma saída razoável, e está tudo certo, cada um no seu tempo.

E o espetáculo foi acontecendo. Ela sempre escolhe letras que a tocam imensamente, ou pela memória do que foi vivido, ou pela forma como marcam sua identidade. Músicas novas precisam ser debulhadas, levam tempo para pertencê-la. No meio do show, escolheu o poema Soneto de Fidelidade para recitá-lo junto à melodia de Eu sei que vou te amar. Seu peito já pulsava de maneira diferente.

Provavelmente, se alguém a perguntasse, ela não conseguiria descrever. Um efeito físico na alma. Talvez as notas musicais, canalizadas em pura energia, percorrem sua estrutura de forma a expandi-lo. Não se é feito de vibração? Para Sigmund Freud, o conceito de Eros refere-se às pulsões de vida, opondo-se a Tânatos (a pulsão de morte). É exatamente isso que reverbera em seu ser: a pulsão de vida. Na mitologia, Eros é a divindade responsável por unir as pessoas através de suas flechas mágicas: o amor.

Ao final, ao abraçar o público, uma jovem veio até ela:

— Você me emocionou muito com o seu show. Quem me apresentou a essa música foi meu pai. Há três meses ele faleceu.

Os olhos da cantora marejaram. Sem cerimônia entre um corpo e outro, acolheu a menina em um abraço e, bem junto ao seu ouvido, sussurrou:

— Eu me recordo de quando perdi meu pai… e fazia exatamente três meses que ele havia partido.

Afastou-se o suficiente para olhar profundamente aquele semblante jovem:

— O luto leva tempo, é um desfiar. Mas você se lembrará desta nossa conversa. Depois de todo o retalhar, você sentirá uma presença constante. Será ele aí dentro de você, com a marca simbólica que você carrega, e da qual poderá fazer sua herança para ir além da ausência, com o que também é seu. Saberá do que estou lhe dizendo.

Mais uma vez os olhos da jovem marejaram, agora com um tanto mais de aconchego, lembrando o poema de Carlos Drummond de Andrade: “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim…”. 

A jovem, agora com um sorriso mais livre, concluiu:

— Foi isso! Fiquei emocionada pois o que você trouxe aqui, a maneira como conduziu o show, a maneira como tudo foi entregue, foi de verdade.

E, nesse momento, quem marejou os olhos foi a artista, que viu sua intenção tomar forma concreta. Para que mesmo serve a arte?

(Foto arquivo Renata Araujo)

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