Renata Araujo
Não sei exatamente se foi a cortina vermelha do teatro que me chamou a atenção, se foi seu corpo expressivo diante dela, ou o nome do documentário na tela do avião, naquela noite diferenciada pela travessia até Lisboa: “Benvindo… à Vida”. Acredito firmemente que todos os elementos tiveram seu peso astuto e, reunidos, cravaram meus dedos sobre a tela com uma curiosidade — essa que sempre abre espaço entre nossos ouvidos, nosso olhar e uma grande pitada daquilo que tem a ver com nossa própria história.
Minha expectativa antecipava a criação do que eu veria, até o momento em que as cortinas se abriram. Lá estava Benvindo, seus braços alongados distribuindo harmonia junto à intensidade de seus músculos fortes e expansivos. Meus olhos cravaram na tela; capturada pela imagem de sua expressão, não desviei mais o olhar da cena que se apresentava.”
O que me veio ao pensamento foi o motivo pelo qual eu peguei aquele avião rumo a outro continente. Um de meus poemas, que veio coroar o êxito da junção de dois mundos, diz um tanto desse relato e traz meus versos embalsamados na madrugada de um dia ponderoso:
Me lancei ao mar
Cortei as cordas que me atracavam ao cais
Meu corpo bote-salva-vidas ondulava junto às ondas
Deixava fazer-se movimento
Seguia a correnteza
Deixava-me correr a favor do que eu mais sentia
Ser música-mar
Voz no mar de mim.
O empuxo do meu corpo a me lançar no “mar de mim” e a história de Benvindo desfilavam sob o meu olhar. Tinha aos meus pés o Oceano Atlântico e, na fala de Benvindo, uma identificação com suas palavras — mais do que isso, uma identificação na vivência do corpo. Sempre dancei, e os palcos sempre foram lugares de entrega. “A primeira vez que dancei senti um encontro, como se eu fosse direcionado a isso. Lá, eu estava em meu lugar, que era minha casa”. Sempre usei moradia, morada. E confesso aqui para vocês que busquei outros sinônimos para a palavra “morada”, em vão.
O que minha procura encontrou não obteve exatamente êxito, pois a palavra moradia significa bem mais do que residência, casa ou lar. Deve ser por isso que surgem os neologismos, e trazer a palavra “corpalma” pode ser o princípio de uma tentativa. E foi exatamente nesses encontros que me senti próxima a Benvindo.
Afinal, a história deste reputado bailarino e atualmente coreógrafo começou longe dali, desenhada também por suas próprias travessias. Nascido em Vila Cabral (atual Lichinga), na província de Niassa, Moçambique, em 1964, Benvindo Fonseca parece trazer no nome de batismo de sua terra natal a ironia poética dos destinos ultramarinos que, anos mais tarde, cruzaram o meu caminho no céu de Lisboa. Seu pai compartilhava o mesmo nome, e a forma como o artista falava no documentário sobre o amor que recebeu dele torna compreensível a sua profunda necessidade de entrega à arte. Após estudar no Conservatório Nacional de Lisboa, ele se tornou o primeiro-bailarino do Ballet Gulbenkian. Ao ver sua arte na tela e testemunhar a força de sua interpretação, fiquei me perguntando como duas pessoas que nunca se conheceram podem beber de fontes artísticas tão semelhantes, permitindo um encontro fortuito — ainda que sem palavras que o possam nomear.
O documentário resgata sua história e foca na grave dificuldade que ele enfrentou no auge da carreira, quando foi impedido de continuar a dançar devido a uma lesão física. Aquele corpo, que tanto se entregara, agora pedia descanso — o que, para ele, significou uma espécie de morte. O título do documentário, Benvindo à Vida, faz uma bela alusão ao seu retorno após superar a dependência de drogas e álcool, mostrando, acima de tudo, o poder transformador da dança.
Precisou se reinventar, atravessar o luto e fazer uma torção em sua história digna de ser contada. Quando cheguei a Lisboa, decidi mandar uma mensagem a ele pelo Instagram e assim o fiz, falando do encontro que tive com ele através da arte. Talvez não tivesse resposta, mas, de forma muito solícita, ele me respondeu. Tentei me encontrar com ele, quem sabe fazer uma aula, mas sua agenda não permitiu: “Olá Renata, obrigado pela mensagem. Eu vivo em Lisboa. Parece-me difícil encontrarmo-nos até dia vinte e oito, pois tenho andado a correr com situações para resolver, mas ficamos ligados aqui no Instagram e, se for para ser, será… Tudo de bom e muito sucesso com tudo que vais fazer. Bjs, Benvindo.”
Com essa conversa, abrimos a possibilidade de futuras trocas. Não desisti de fazer algumas aulas com ele e de poder ouvir sobre as fontes que lhe servem de referência na arte. Ainda teremos esse encontro, assim espero. Outro pensamento que passou a desenhar os meus dias foi a facilidade de conexão que a internet nos proporciona; no entanto, transformar todo esse saber em algo positivo e concreto é uma atitude que depende exclusivamente de nós mesmos. É o que nos força a cortar as cordas do cais, deixar-se fazer movimento e, finalmente, permitir que a alma dance. (Foto divulgação)










