Wagner Gomes
Amigos, não há nada mais falso do que dizer que Messi (foto Fifa) nasceu apenas em Rosário. Não. Messi nasceu também no campinho de terra, no corredor de uma casa suburbana, na rua em que dois chinelos faziam as vezes de trave. Nasceu em cada menino que chutou uma bola contra o muro e ouviu, no estampido do rebote, o rumor de uma multidão. Foi pequeno no corpo, tímido na voz e desmedido no talento. Aos 13 anos, deixou Rosário e levou consigo a saudade, o tratamento hormonal e uma solidão de dar pena até em estátua.
Na Catalunha, aquele menino silencioso encontrou Ronaldinho Gaúcho. Ah, Ronaldinho! O brasileiro de sorriso lunar compreendeu antes de todos que aquele garoto carregava dinamite nos pés. O brasileiro não apenas lhe ofereceu amizade e proteção: ofereceu-lhe o primeiro passe para a eternidade. Em 2005, foi de Ronaldinho a assistência para o primeiro gol oficial de Messi pelo Barcelona — uma delicada cavadinha, como se o futuro tivesse sido cuidadosamente colocado por um gênio nos pés de outro. A bola subiu com uma delicadeza de noiva e caiu dentro da rede. Era o futuro entrando em campo sem bater à porta. Seu carisma nasceu justamente da ausência de pose. Messi parecia pedir desculpas depois de destruir uma defesa. Nele, o futebol deixou de ser apenas força, velocidade e cálculo. Voltou a ser assombro. Voltou a ser colossal. Enquanto ele seguia adiante com a bola colada aos pés como uma confidente, Messi não driblava homens. Driblava a lógica.
Nesta Copa, aos 39 anos, carregou a Argentina com uma solidão quase bíblica. Marcou, assistiu, criou, decidiu. Quando os companheiros já respiravam pela alma, era ele quem pedia a bola. A maioria dos veteranos vive de retratos amarelados. Messi continuava fabricando lembranças diante de nossos olhos. A Espanha conseguiu detê-lo na final, mas não diminuiu sua grandeza. Apenas encerrou o último capítulo provável de uma epopeia. Messi saiu sem a taça e, ainda assim, maior do que muitos campeões.
O que se viu durante a partida e depois do apito foi o contraste entre a nobreza e a indigência moral. Há, em certos jogadores argentinos, uma velha e deplorável dificuldade de aceitar a derrota: cercam árbitros, dramatizam contatos, transformam inconformismo em intimidação. Paixão não é licença para a selvageria. Competitividade não absolve a falta de compostura, inclusive quando os argentinos viraram as costas para a seleção espanhola quando recebeu o troféu de campeã do mundo. Não existe camisa grande o suficiente para esconder a estupidez de um gesto.
Messi também não saiu ileso. Ao usar o gesto de Cucurella para pedir sua expulsão, tentou explorar um protocolo contra ofensas discriminatórias. Foi um deslize indigno de sua grandeza. Mas permaneceu humano: ferido, falho e ainda Messi.
E então apareceu Lamine Yamal. O rapaz que, ainda bebê, fora fotografado nos braços de Messi aproximou-se para abraçá-lo. Certas coincidências são tão perfeitas que deixam de ser coincidências. Tornam-se obra do destino, esse dramaturgo desavergonhado. No maior palco do mundo, suas trajetórias se cruzavam novamente. O campeão de 19 anos amparava o gênio de 39. O menino que começara nos braços de Messi agora o recebia nos próprios braços, ao fim de sua última Copa. Era como se o futebol fechasse um círculo diante de bilhões de testemunhas. O destino soube desenhar uma cena perfeita: o último Mundial do mestre terminando exatamente onde começava a história do discípulo. Talvez Messi tenha se despedido dos Mundiais. Talvez não. Os gênios têm o direito de contrariar até o calendário. Mas, se foi o fim, houve beleza naquele adeus. O mestre saía quando o discípulo chegava. Um sol descia no horizonte; outro começava a nascer. As taças mudam de mãos. Os campeões envelhecem. As multidões se esquecem até de seus próprios gritos. Os troféus mudam de dono. A magia, não.
Ao Messi, com carinho — e com a gratidão de quem viu, durante tantos anos, a bola tratar um homem como seu melhor amigo.
Wagner Gomes – Articulista











