Wagner Gomes
A taxa de desemprego cai, os gráficos sorriem e o discurso oficial se anima. O problema não está no número — está no uso político do número. A estatística mede corretamente o que se propõe a medir. O erro é confundir isso com prosperidade social. A metodologia brasileira não é uma jabuticaba. Ela segue padrões internacionais recomendados pela OIT. Países desenvolvidos utilizam critérios semelhantes. Os Estados Unidos, por exemplo, divulgam sua taxa oficial de desemprego (U-3) pelo Bureau of Labor Statistics, que também exclui desalentados e subocupados. A Europa adota lógica próxima via Eurostat. Portanto, o método não é fraudulento. É limitado por definição. A diferença está no contexto. Economias maduras usam essa taxa como um indicador entre vários, não como troféu. Lá fora, quando o desemprego cai, discute-se produtividade, salários reais, qualidade das vagas, mobilidade social. Aqui, o número vira manchete redentora — e ponto final. O conceito clássico de pleno emprego nunca significou “qualquer ocupação serve”. Historicamente, ele pressupõe trabalho produtivo, renda suficiente e inserção estável no sistema econômico. Aplicar esse rótulo a um país onde milhões sobrevivem de bicos, informalidade crônica e ocupações intermitentes é um exercício de semântica otimista — para dizer o mínimo. A metodologia do IBGE, presidido por Marcio Pochmann (foto Washington Costa/MPO ), considera ocupado quem trabalhou ao menos uma hora na semana de referência. Uma hora! Estatisticamente defensável. Socialmente constrangedor. É o tipo de critério que transforma precariedade em virtude e necessidade em escolha. O sujeito não está desempregado; está “empreendendo a própria escassez”. O risco maior não é técnico, é político. Ao cantar vitória com base nessas premissas, o Estado desloca o debate. Se há pleno emprego, por que reformar o sistema produtivo? Por que enfrentar a desindustrialização? Por que investir pesado em tecnologia, qualificação e inovação? O número confortável funciona como sedativo institucional. Nenhuma nação séria declara missão cumprida apenas porque a taxa oficial caiu. Ela sabe que estatísticas não capturam frustração, nem medem futuro. Emprego ruim ocupa tempo; emprego bom constrói país. No Brasil, o método mede o que pode. O discurso vende o que não existe. Chamar isso de pleno emprego é, tão somente, uma opção narrativa. A planilha fecha. A conta social, não.
Wagner Gomes- Articulista










