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A consciência dissolvida no evangelho do Estado

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 8 de maio de 2026
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(Foto: Gail Turner/Journal of the British Archaeological Association)

Wagner Gomes

O constantinismo é essa velharia que insiste em voltar fantasiada de virtude. A união da Igreja com o Estado — nascida menos da fé e muito mais do oportunismo imperial — foi o grande golpe medieval contra a autonomia moral do indivíduo. Constantino não converteu o Império ao cristianismo; converteu o cristianismo ao poder. O resto é hagiografia mal contada. Desde então, a fé passou a marchar de mãos dadas com o porrete. O céu virou promessa administrável; o inferno, instrumento disciplinar. O messianismo estatal nasce aí: um pacto obscuro em que a Igreja legitima o poder e o poder administra consciências. Não há transcendência nisso. Há controle. O Brasil ainda opera com a cabeça no século XXI e a alma no medieval. Trocamos castelos por palanques, mas preservamos o ritual: o povo ajoelhado, o poder ungido e a salvação sempre adiada. Mudou apenas a cobrança. Antes, o dízimo. Hoje, o dízimo — do qual não se abre mão — acrescido do voto. Aqui, essa herança chega com atraso crônico e vigor tropical. O altar virou palanque; o púlpito, comício. Líderes religiosos vendem a ilusão de que o Estado pode redimir o homem — desde que ele vote certo, obedeça calado e aceite o medo como método pedagógico. A fé do humilde virou moeda: compra-se céu com obediência; paga-se inferno com dissidência. Não é religião. É mercado. O presidente Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro surgem como santos rivais de uma mesma catedral apodrecida. Prometem redenção; não entregam responsabilidade. Quando o céu é projetado para fora, a consciência é sequestrada. Troca-se maturidade moral por lealdade política. Esse falso messianismo é filho direto do constantinismo. Quando Igreja e Estado se abraçam, o indivíduo desaparece. Jesus nunca propôs teocracia nem salvação coletiva administrada. Falava a pessoas, não a massas. O cristianismo original exige autonomia; o constantinismo exige submissão. Um ritual político verdadeiramente moderno — e laico — começa rompendo essa simbiose decadente. Fé não legitima poder. Poder não distribui salvação. O resto é medievalismo requentado, com estética eleitoral. A fé genuína é subversiva porque dispensa intermediários. Exige maturidade, não tutela. Aceita o que não pode ser mudado e age sobre o que pode. Tudo além disso é liturgia de poder. Enquanto insistirmos em buscar messias eleitorais, continuaremos presos ao mesmo altar, apenas com bandeiras diferentes. O medieval não acabou. Aprendeu a pedir voto. E a vender indulgências com nova roupagem: propina, jeitinho, comissão, suborno… (Foto: Gail Turner/Journal of the British Archaeological Association)

Wagner Gomes – Articulista

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