Wagner Gomes
Embora os Originais do Samba tenham sido os primeiros a gravar “Se gritar pega ladrão”, foi Moreira da Silva, o Kid Morengueira, que a imortalizou. Ele levou a canção para o território onde reinava: o samba de breque, cheio de malícia, pausa e comentário — quase um editorial cantado. No samba- e-breque a música para e faz com que a verdade fale. A malandragem não surge como falha ética isolada, mas como sistema informal de funcionamento, tolerado, compartilhado e naturalizado — uma regra não escrita que organiza a cena para se tornar protegida pelo próprio ambiente social. Basta alguém gritar “pega” e a cena se esvazia. Não sobra acusador nem acusado. O breque revela a regra. Décadas depois, Bezerra da Silva – o cronista das ruas – levou essa lógica ao osso. Quando o grito vira “pega ladrão”, ninguém corre atrás. Todo mundo corre junto. Não por covardia, mas por reconhecimento. O medo não é da polícia; é do enquadramento. O grito não busca justiça — provoca pânico.
Culpa difusa, consciência suja, moral em débito. Se todos fogem, ninguém é inocente. Não por acaso, a canção cuja letra é de Ary do Cavaco e Bebeto Di São João— nunca aponta um culpado específico. O ladrão não é personagem; é procedimento. Bezerra não acusa: ilumina. Ri primeiro, corta depois. Samba como manifesto popular. Quando a corrupção vira ambiente, o moralismo vira teatro. Grita-se alto para não ser examinado de perto. Se Moreira criou o arquétipo, Bezerra chamou o personagem para depor. Menos encenação, mais denúncia. O grito, não ficou restrito ao morro nem ao disco. Mudou de palco, ganhou gravata e ecoou no Supremo.
Quando o ministro Flávio Dino resolveu puxar o fio das emendas parlamentares, fez algo elementar e explosivo: acendeu a luz sobre as famigeradas emendas parlamentares. Não acusou indivíduos; questionou o método. O efeito foi imediato e conhecido. Ouviu-se o velho alarme nacional: “pega emenda”. E deu-se o milagre da unanimidade instantânea. Esquerda, direita, centrão, devotos do orçamento secreto e ateus da transparência — todos correram. Não ficou um, meu irmão. A cruzada foi vendida como zelo republicano. E pode até ser. Mas o efeito colateral é puramente moreiriano: quem sempre apontou o dedo descobriu que, também, estava no enquadramento. A indignação virou súbita defesa do“funcionamento do sistema”. Tradução livre: mexe não, que cheira mal. O detalhe mais revelador não é quem Dino incomodou, mas quem se sentiu ameaçado sem ser citado.
Quando ninguém se apresenta para defender a prática, é porque ninguém se julga inocente. O silêncio, aqui, é confissão coletiva. No samba, o ladrão nunca aparece. Na política, também não. Porque ele não é indivíduo — é rotina normalizada. Moreira criou a metáfora. Bezerra escreveu o manual. Dino puxou o alarme. Resultado previsível: praça vazia, discursos cheios — e a velha moral brasileira em funcionamento perfeito.
Wagner Gomes – Articulista










