Wagner Gomes
A disputa pela paternidade do Pix diz mais sobre a política brasileira do que sobre o sistema. Flávio Bolsonaro afirma que a ferramenta “é do Bolsonaro”, por ter sido lançada no governo de seu pai. Lula responde que “o Pix é do Brasil”. A cronologia foge da lógica dos palanques. O Pix estreou em novembro de 2020, mas sua construção começou antes. O Banco Central já estudava pagamentos instantâneos desde meados da década passada, quando TED e DOC dominavam as transferências bancárias, com custo, restrição de horário e pouca agilidade. Em 2018, no governo Michel Temer (Jane de Araújo/Agência Senado), a autoridade monetária criou grupo de trabalho para desenhar a infraestrutura do novo sistema. Participaram bancos, cooperativas, fintechs, empresas de tecnologia e técnicos do BC. No governo Bolsonaro, o projeto entrou na reta final: ganhou nome, marca, tecnologia e data de estreia. Foi lançado naquela gestão, mas isso não significa que tenha sido criado por ela. A obra nasceu como política pública de Estado, não como troféu de governo. O Pix tem menos cara de assinatura presidencial e mais cara de engenharia institucional — dessas que atravessam mandatos. A controvérsia ganhou fôlego depois que o sistema entrou no radar dos Estados Unidos, em meio à investigação comercial contra o Brasil. A tese americana é que o Pix poderia favorecer uma infraestrutura pública em prejuízo de concorrentes privados. Especialistas, porém, sustentam que ele ampliou a concorrência, reduziu custos e abriu espaço para empresas estrangeiras no mercado brasileiro. Há ainda uma disputa judicial. A professora e empreendedora Anette Vernaschi Toppan afirma ter desenvolvido uma tecnologia que teria servido de base ao Pix e cobra indenização do Banco Central. A instituição nega ter usado o projeto e diz que o sistema resultou de um processo técnico próprio, conduzido ao longo de anos. No fim, a pergunta “quem criou o Pix?” está mal formulada. O Pix não cabe na gaveta de um partido, de um presidente ou de uma gestão. Foi concebido pelo Banco Central, lançado sob Bolsonaro e incorporado ao cotidiano nacional. Num país em que quase tudo vira disputa de autoria, o Pix virou algo raro: uma política pública que pegou, simplificou a vida, mudou hábitos e virou referência internacional. E, quando uma política pública pega, o melhor dono costuma ser o usuário.
Wagner Gomes – Articulista










