Renata Araújo
Os filhos vão tomando forma de asas esvoaçantes. Aquelas mesmas asas que viviam coladas ao corpo pequeno. Foram se desenvolvendo dia após dia. Para uma mãe, uma contradição invade sempre o corpo de forma indagadora, instigadora, trazendo um contraponto inevitável de viver o desvencilhamento na pele, e sob a pele. Ao mesmo tempo que você quer segurar a distância do voo, essa medida necessária para tornar-se livre, é uma dor que toma conta da alma.
Por outro lado, querer que os filhos permaneçam sob sua égide não os prepara para os voos. É uma mistura de proteção e prisão. Mantê-los ali, aquecidos, só os torna incapazes. É difícil abrir as asas protetoras da mãe e oferecer as possibilidades de vivências. Sentir seus olhos despertos para a claridade lá fora, causa estranheza e a sensação de um certo abandono. Suas asas agora abrem com pretensão, acanhadas ainda em seus movimentos. Os primeiros passos para fora da caverna são um tanto arrastados pela curiosidade do que possa existir depois do caminho traçado. Caminham ainda sem pensar em voo para a beira do portal, exigindo esforços. A mãe empurra-os meio desajeitados, com uma dor no coração – é necessário que sigam seus caminhos.
Ninguém leva muito em conta a permanência da mãe, que por um longo período mantém-se no fundo da caverna, onde a luz mal alcança seus caminhos. E faz parte de todo o processo, essa estada nesse espaço recolhido chamado tempo. O tempo de cozer, elaborar. Toda a atenção ainda está voltada para os filhotes que em bando criam novas identificações. Lá no fundo da gruta ela começa a bordar com linhas douradas o tecido fino que recebeu da vida. A cada ponto que fazia passando a agulha, um frescor de luz iluminava a entrada da caverna. Custou paciência para iluminar seu caminho. Redescobrir o caminhar, reinventar a estrada, para poder realizar seu próprio voo.
E volto o olhar para as mães, os filhos já seguiram seus caminhos. Várias noites ela dormiu com seus olhos marejados, sentindo a solidão a chamar para o mais fundo da caverna. Continuava a costurar a vida, era sua saída. Um certo dia, espreguiçou seu corpo alterado pelo tempo e pelo deslocamento transversal. Uma luz intensa cobria toda a gruta. E os fios dourados se transformaram em ouro reluzente. Havia se reencontrado, reconstruído seu caminho. Acontece isso mesmo, as mães de filhos que voam, precisam se reinventar depois que eles se vão. Dar novos nomes, novas direções à vida que não é mais a mesma. E assim seja…
Hoje, minha filha me chamou para fazer yoga com ela. Topei pelo momento de estarmos juntas. Ali lado a lado, mergulhando em toda uma história, aproveitei sua companhia tão deliciosa, de menina que se tornou mulher. Na hora do relaxamento, a professora pediu que nos colocássemos na posição de feto. Ela realizava o exercício na minha frente, pude vê-la se enroscando como bebê dentro da barriga, dentro de minha barriga. Olhei a cena, a grande mulher se transformando em meu bebê novamente. Senti ela se mexer em meu ventre, passei a mão em suas costas, como se alisasse minha barriga enorme. Ela me ofereceu suas mãos, seus braços alongados, meu cordão umbilical. Meu corpo se aqueceu revivendo a cena recriada. E uma longa lembrança passou ali nesse ínterim. Para cada filho, sempre cantei uma música – para ela, a letra já invadia meu coração.
Renata Araújo – Psicanalista, escritora e cantora.











