Paulista de Jundiaí, vice-reitora da Catholic University of America, em Washington D.C, considerada uma das 10 mulheres que mudaram o Brasil pela Columbia University, a astrônoma Duilia de Mello (foto: Divulgação/ UM BRASIL) é uma mulher de reputação internacional em área dominada por homens: as ciências duras, termo usado para referenciar áreas como a Física e a Matemática. Descobridora da Supernova 1997D – explosão que marca o fim da vida de uma estrela – e pesquisadora associada à Nasa, Duilia de Mello é incentivadora do ingresso de meninas e mulheres na ciência e defensora de investimentos feitos pelo poder público na área. “A ciência melhorou a qualidade de vida para o ser humano.” Ela sabe que não é fácil e divide com as leitoras e leitores um pouco das experiências e pontos de vista que fizeram dela a Mulher das Estrelas, como é conhecida na comunidade científica mundo afora.
Por que a ciência é importante?
O avanço da ciência está correlacionado com o avanço da sociedade, com a melhoria da qualidade de vida. Por conta de todo investimento na saúde, a taxa de mortalidade infantil, por exemplo, é muito mais baixa no mundo inteiro, as pessoas vivem mais. A ciência melhorou a qualidade de vida para o ser humano. Melhorou igual para todo mundo? Não, ainda temos disparates, fruto de uma sociedade que não revê prioridades.
A pergunta parece óbvia, mas em anos recentes vimos o negacionismo em vários governos pelo mundo. Por quê?
Vemos o negacionismo porque esta é uma forma, também, de controlar a sociedade. Uma sociedade que investe em ciência é uma sociedade pensante, que reflete sobre suas conquistas. Você começa a ter, também, uma sociedade que questiona governantes. É mais fácil liderar uma sociedade de descrentes do que de crentes na ciência.
A sua trajetória conecta o Brasil ao cenário internacional. Como é ser mulher protagonista em uma seara masculina e fora do próprio país?
Primeiro, ser imigrante é muito difícil. A gente sempre está morando na casa alheia, na casa dos outros. É preciso vencer esse obstáculo. Também não é fácil ser mulher na ciência em qualquer país porque nós somos a minoria e não é fácil ser minoria em nada, porque a gente sempre é atropelada pela maioria. Então, quando se fala em ser mulher, imigrante na ciência, já foram várias barreiras ultrapassadas. Neste momento, já existe uma confiança do setor na minha competência porque já passei por um crivo. Então, não me sinto desvalorizada por isso, pelo contrário, me sinto valorizada. Mas por conta de um esforço próprio, pois tive que superar estas barreiras: imigrante e mulher na ciência para ser o que eu sou hoje. É uma conquista minha.
A presença feminina na ciência é, ainda, minoritária em todos os países, e como a presença da mulher na ciência reflete sua posição no mundo?
Sim, a presença feminina ainda é minoritária no mundo todo. Há certas áreas da ciência com mais mulheres, como a área de Biologia. Já na área das ciências duras, como a gente chama a Física, é baixo o número de mulheres no mundo inteiro. Os obstáculos mais difíceis são os mesmos que as minorias enfrentam: direito à voz. Por exemplo, você estar em um congresso e as pessoas te ouvirem, você não ser considerada a expert naquele assunto quando a expert é você. Ainda o tal do mansplaining, que é o homem querer explicar a você, que sabe mais do que ele, qual é sua área de trabalho. Então, há todo um dia a dia de micro-opressões muito difícil sendo mulher na ciência.
O Brasil investe pouco em ciência. Isso é falta de recurso ou de projeto de país? E qual deveria ser o papel do Brasil nesse cenário: investir para competir ou focar em cooperação internacional?
O Brasil investe em ciência, mas deveria investir mais. É falta de projeto de país porque a ciência é feita a longo prazo e este é o problema no Brasil: a gente tem que planejar a ciência durante a década e não durante quatro, cinco anos. Você não consegue grandes resultados a curto prazo. O Brasil tem que decidir se quer liderar na ciência ou não. Mas o país tem grandes instituições que fazem ciência. Vou citar a Embrapa, que não é da minha área, mas tenho grande admiração pela Embrapa e pela ciência que a Embrapa faz. Então, o Brasil precisa decidir: vai investir em todas as áreas? Quer investir só em algumas? Isso é importante de ser definido. Na ciência espacial acho que deveria ser feita com cooperação internacional porque é muito caro e não justifica o país investir tanto tendo muitas outras prioridades. Mas o Brasil poderia sentar com todos seus cientistas da área espacial e desenvolver um plano de ação para os próximos 10, 20 anos e se comprometer com a cooperação internacional. O que não pode fazer, como já foi feito várias vezes, é entrar em um projeto internacional e depois não pagar sua própria participação, como já aconteceu. Faz a gente até passar vergonha, né? Então precisa de um critério sobre as áreas na qual se quer investir e investir pesado.
Na hipótese de você aconselhar o governo brasileiro, quais seriam três decisões prioritárias para mudar o rumo da ciência no país?
Primeiro ter um plano a longo prazo a partir da identificação das áreas de interesse para o país. Temos que ter certeza de que existem as bolsas de pesquisa, que não passem pelas crises de sempre, em que vai-se retirando dinheiro das bolsas, que não vão sendo reajustadas com a inflação e fica aquela situação em que o cientista não é valorizado. Isso precisa melhorar.
Se você pudesse mostrar uma única imagem do Universo para alguém que nunca se interessou por astronomia, qual seria e por quê?
Mostraria uma imagem do campo profundo do Universo, o deep field. Porque nesta imagem consegue-se explicar tudo; as origens da vida, até. Porque você pode falar de todo Universo em uma imagem.
Raquel Ayres










