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Marcos Andrade: exames sofisticados e alta tecnologia nem sempre significam saúde plena

Paulo César de Oliveira
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(foto: Reprodução/Instagram)

A medicina é, sem dúvida, um dos setores que mais se beneficiaram com a tecnologia. São aparelhos ultra potentes, exames exatos, medicamentos de ponta. Mas nem sempre eles são necessários ou viáveis. Muitos podem trazer traumas e causar danos ao organismo. Um problemasegundo o cardiologistada renomada Clínica Marcos Andrade (foto: Reprodução/Instagram), que tem virado uma dor de cabeça para a classe médica. Ele também tem que lidar com especialistas do Google e com a mudança no comportamento das pessoas desde a pandemia da Covid, que impôs o isolamento e a uma nova mentalidade em termos de saúde.

Houve uma mudança no comportamento das pessoas? Há uma procura por medicamentos, vitaminas, mais exames, exercícios e tudo mais?

Houve sim. Acho que foram duas modificações radicais. Primeiro o comportamento até social. As pessoas começaram com o enclausuramento que nós todos ficamos na Covid e as pessoas começaram a procurar fora da realidade delas, um lugar fora da cidade para morar. Esses loteamentos todos perto de Belo Horizonte, que estavam todos vazios, cheios de terrenos à venda, os condomínios ficaram lotados em busca de espaço para poder não usar máscara e respirar ar livre de máscaras e se proteger da doença. O que pude observar nessa época é que as pessoas apostavam nessa mudança como uma forma de voltar para o interior. Na verdade, nós todos somos do interior. Se formos pensar, antes não existia a capital, depois várias cidades foram surgindo para se eleger uma capital. Então nós todos somos do interior e com as pessoas com medo da morte, resolveram voltar para de onde elas vieram, que é o interior. Um pouquinho mais para frente, percebi que não era só o interior geográfico. As pessoas, na verdade, passaram por um processo de interiorização, com um tempo para pensar sobre a vida, pensar no lado emocional, psicológico, que impactou muito. As pessoas começaram a ter mais tempo para se preocupar com a atividade física, para se preocupar em ter uma alimentação melhor e procurar coisas mais saudáveis. Hoje sabemos que apesar de todos os avanços que temos na medicina, das várias drogas que existem para preservar a saúde, todos os trabalhos científicos deixam claro que é preciso ter uma dieta adequada, atividade física e mais alguma das drogas novas. Nada funciona em termos de remédio, em termos de prevenção se não tivermos alimentação adequada e atividade física. E essa foi a mudança que existiu mesmo. 

É a velha máxima do “mens sana in corpore sano”? As pessoas também estão mais intolerantes nessa nova fase?

Temos observado que a vida está se tornando muito competitiva. A necessidade de viver muito e viver rápido, fez com que o valor de ter dinheiro, de enriquecer, de fazer grandes negócios, de superar o outro, criou um ambiente muito competitivo. E onde há muita competitividade, várias características negativas, surgem, entre elas, uma certa intolerância mesmo e isso é causa de doença na população jovem, gente aí de 30 anos, 35 anos, se tornando grandes executivos, CEOs de grandes empresas pessoas se matando por causa do dinheiro, para poder ter um status social. Há uma mudança inclusive das profissões. As profissões clássicas como médico, dentista, advogado, administrador, são profissões ser mais “pacificadas” e estão sendo suplantadas por profissões muito voltadas para atecnologia. 

 Falando em informatização, a tecnologia chegou na medicina de uma maneira muito forte. Alguns desses exames são realmente necessários ou existem excessos?

Hoje a quantidade de informação que você tem sobre uma determinada doença no seu computador é uma coisa absurda. Você tem que ler de manhã, de tarde, de noite, porque de manhã você acha que tem um tema importante e à noite está desatualizado. Há um grande número de informações sob todos aspectos da medicina, dentro de todos os computadores. Todo mundo tem acesso, todo médico tem acesso a informação. A grande diferença é você ter as pessoas que aplicam essa informação e transcrevem essa informação para cada indivíduo. Aí que eu vou chamar o pulo do gato. Existem grandes conhecedores da medicina e que não são bons médicos. A pessoa tem um grande conhecimento teórico, mas muitos sintomas na hora de transcrever para aplicar em cada pessoa, mesmo tendo muito conhecimento, às vezes ela não tem essa habilidade. Então nunca a pessoa do médico foi tão importante, porque como ele tem uma gama de formações e informações muito grande. Ele se tornou agente da cura da doença. O poder colocado hoje na mão do médico é um poder enorme. Ele tem dois poderes enormes: ele tem o poder do diagnóstico com centenas de novos exames, e o poder de tratamento com centenas de novos medicamentos e o de traduzir isso para o paciente.

Traduzir também o que o dr Google está dizendo? 

Esse é outro problema, porque as pessoas hoje estão muito mais informadas. E quando a pessoa lê um assunto, mas que ela não tem uma formação básica, as vezes tem uma interpretação absolutamente divergente da realidade. E a pessoa se julga, às vezes, com competência suficiente para discutir aquilo com quem tem o conhecimento completo, a formação para exercer a profissão. Então, daí as diversas divergências que surgem. É preciso tomar muito cuidado, porque você não pode permitir que o poder econômico determine o que vai ser feito em termos de saúde. Da mesma forma, tem os pacientes quenão gostam do médico por algum motivo qualquer, ele não quer continuar tratando com determinado médico. Às vezes acontece de o médico também não querer tratar de alguma pessoa. Nessa hora é fundamental que ambos os lados se posicionem. Dentro desse poder do dinheiro, já tive, pelo menos, duas situações, de pessoas extremamente bem financeiramente, solicitaram que eu fizesse pedidos de determinados exames, que não via nenhuma indicação para que fossem realizados e que poderiam colocar em risco a pessoa. Mas essas pessoas se posicionaram alegando “eu tenho dinheiro, eu quero, eu posso pagar esse exame, sei que é caro e eu vou fazer. Eu quero é um pedido para fazer”. Não sou eu que vou dar um pedido, porque eu não concordo que a pessoa faça o exame. Muitas vezes, ter muito dinheiro não quer dizer que a pessoa tenha a necessidade de realizar determinado exame e se ela não entender isso de uma forma muito clara, ela vai se prejudicar porque alguns exames são perigosos para a saúde e ter muito dinheiro não dá poder sobre esse tipo de posicionamento da saúde, que isso pode provocar lesões na pessoa. Os exames estão cada vez mais potentes, mais informativos, mas também são exames trazem risco de vida. 

É algo de muito dramático. Se você precisa de fazer um exame de altíssimo risco, e vier a falecer ou ter uma lesão porque era para fazer o exame, é o risco. Agora, se você não tinha indicação, fez porque pode pagar, sem necessidade, é uma coisa absolutamente inaceitável. Ás vezes as pessoas com menos recursos, são melhores de tratar. Eu trabalhei muitos anos no hospital Felício Rocho, que é um hospital filantrópico. Existia um andar inteiro, com atendimento gratuito. Os pacientes gratuitos eram extremamente bem tratados no hospital, que não colocava limites de custos e a gente não colocava limites de carinho e saber tratar essas pessoas. Às vezes, com a falta de dinheiro, você faz aquilo que é exatamente o necessário, o suficiente. Às vezes, a falta do dinheiro até ajuda para que você tenha melhores resultados.

Sueli Cotta

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