Paixão pelo serviço público, por fazer acontecer. Orgulho de ser professora da Fundação Dom Cabral. Quem conversa com a ex-secretária de Planejamento e Gestão de Minas Gerais entre os anos de 2007 a 2014, Renata Maria Paes Vilhena (foto: arquivo pessoal RV), logo percebe isso. Ela é uma entusiasta da gestão pública com os pés fincados na realidade; conhece as dores do que cerca “a coisa pública”. Graduada em Estatística pela UFMG, Renata ingressou na carreira em 1985 e transita com competência entre o setor público e o meio acadêmico, sendo referência nacional em gestão governamental. Renata Vilhena está envolvida em projetos de capacitação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e abriu espaço na agenda para conversar com o Blog do PCO. “Na área pública é preciso ser resiliente o tempo inteiro”, nos ensina ela.
Partindo de uma pergunta que você mesma deixou no seu Instagram: quanto de nosso esforço é usado para apagar incêndios e quanto é investido para evitar que o fogo se repita na gestão pública?
Eu brinco que todos os servidores públicos poderiam ganhar o título de bombeiro honorário. Claro que as emergências precisam ser cuidadas, mas quando só se apaga incêndio, deixa-se de executar aquilo que é estratégico com risco de perder o foco daquilo que é transformador, que vai gerar valor público e fazer com que as crianças, por exemplo, melhorem o aprendizado, que diminua a mortalidade infantil. Há uma preocupação muito grande com o curto prazo, aquilo que não se pode deixar de fazer, e pouco investimento no que é transformador.
O que está nos faltando para chegar ao que é transformador ?
Tenho percebido estados, municípios e até órgãos de controle preocupados em não fazer mais do mesmo para que possam deixar um legado que mude a política pública. Recentemente, temos recebido, na Fundação Dom Cabral, demandas de planejamento estratégico, daqueles bem realistas, mesmo. Porque grandes coisas na área pública, demandam 10 anos, por exemplo, e até mais. Então, planejamento estratégico é fundamental porque as prioridades estarão ali. Escolher prioridades é escolher, também, o que não será feito, e isto é fundamental quando se tem recursos escassos e limitação de pessoas.
Você transita entre o setor público de alta responsabilidade e a academia. Quais aprendizados de Minas Gerais mais influenciam sua atuação como professora da Fundação Dom Cabral?
Tenho orgulho muito grande de trabalhar na Fundação Dom Cabral. Temos um método diferente de fazer projetos com a área pública pela preocupação em transmitir o conhecimento. É uma construção coletiva porque, assim, as pessoas que estão nos órgãos públicos terão condições de atuar e realizar as inovações necessárias. Isso foi um grande aprendizado no governo. Por outro lado, levo para a Fundação a teoria agregada à prática de implementação, o que é um diferencial enorme: o conhecimento das dores, das limitações e das alegrias da área pública.
Quais são estas grandes dores na gestão pública?
Na área pública é preciso ser resiliente o tempo inteiro. Muitas vezes sabe-se que uma determinada ação, um projeto é muito bom mas não terá condição de ser implementado naquele momento, ou não é uma prioridade daquela plataforma de governo. Então, a resiliência tem que estar no nosso DNA.
Orçamento limitado é outra questão: cada vez é preciso inovar mais e fazer diferente para alcançar resultados. Temos também a necessidade de pessoas mais qualificadas, preparadas. Vejo que durante muito tempo, principalmente em órgãos públicos municipais, não se investiu em pessoas. Como cobrar de um servidor algo novo se você não deu para ele condições de adquirir conhecimento? Ao mesmo tempo é prejudicial a procura pelo ingresso no serviço público apenas pela estabilidade, pelo bom salário mas sem um propósito, sem a vocação.
E as alegrias, Renata, onde estão?
No sentimento proporcionado pelas entregas: casas, estrada, asfalto para uma população. Não existe sentimento mais realizador. As políticas públicas impactam a vida das pessoas, e podemos fazer isso negativamente ou positivamente. Temos, hoje, a necessidade de mudar o perfil dos profissionais, seja na área pública ou privada, para fazer estas entregas também por conta das transformações tecnológicas, que pagaram a gente de jeito. Os governos precisarão começar a investir em competências e habilidades porque é preciso fazer acontecer. Não é possível ficar parado, estagnado.
Como vamos ter mão de obra qualificada se temos números muito ruins na Educação Básica?
É inadmissível. O Brasil é um dos países que mais gasta em Educação sem ter retorno. Passamos por uma fase de dar acesso: hoje não falta escola, mas temos que melhorar muito a qualidade do ensino e a transformação passa pela qualificação do professor. Temos uma evasão grande, que ninguém conseguiu resolver.
Por que desta grande evasão?
Os jovens não se sentem engajados. Muitos são chamados pela familia para trabalhar. Existe uma distorção entre a idade e a série por conta da falta de atratividade do ensino. É preciso um investimento grande no ensino profissionalizante para que o jovem que precisa trabalhar tenha renda. Mas nosso ensino profissionalizante ainda está muito aquém da necessidade do país. Vivemos este drama há muito tempo. Mas o governo também não tem que fazer tudo sozinho. O setor privado deve trabalhar junto com o setor público.
Na Educação significa que funções como consertar um cano, reparar o muro de uma escola, podem ser repassadas à iniciativa privada para que o setor público canalize recursos para fornecer professores qualificados e uma agenda pedagógica de qualidade, para investir em tecnologia. Outro problema gravíssimo, latente nos municípios, é a falta de profissionais qualificados para lidar com crianças com alguma defasagem.
A sociedade está preparada para fazer a sua parte, para agir, também, em conjunto com o governo?
A gente só vai garantir a continuidade das políticas públicas e seus resultados se a sociedade participar. Isso é o que chamamos de governança social. Mas não vamos nem à reunião de condomínio dos nossos prédios! A não ser a imprensa, ninguém consulta portais de transparência. Não temos as participações sociais que deveríamos ter.
Raquel Ayres










