Wagner Gomes
O Brasil não sofre apenas de excesso de Estado. Sofre de algo mais profundo: a captura da vida nacional por um estamento que aprendeu a existir acima da sociedade, usando-a como fonte permanente de poder político, financeiro e simbólico. Foi isso que Raymundo Faoro (foto reprodução) descreveu em Os Donos do Poder. Décadas depois, a engrenagem continua intacta — apenas mais sofisticada. O velho patrimonialismo brasileiro, hoje, opera em linguagem técnica, cercado de relatórios ESG, conselhos estratégicos e jantares discretos. É nesse ambiente que uma figura como Vorcaro deixa de ser apenas empresário para se tornar expressão de um modelo nacional de poder.
Não importa aqui discutir talentos individuais ou méritos empresariais reais, que podem existir. O ponto central é outro: no Brasil, grandes fortunas frequentemente crescem em ambientes onde relações regulatórias, crédito estatal, influência institucional e trânsito político pesam tanto quanto esperteza e cumplicidade. Mas que isso não seja um libelo acusatório contra Vorcaro, e sim uma tentativa de identificar o alvo verdadeiro, que é o modelo, muito embora, no momento atual, ele encarne uma engrenagem maior que deságua na formação de uma elite híbrida, metade mercado, metade Estado, típica do capitalismo brasileiro contemporâneo.
No Brasil, frequentemente prospera não apenas quem produz melhor, mas quem compreende melhor os corredores subterrâneos do Estado. Crédito subsidiado, influência regulatória, acesso institucional e proximidade política tornam-se vantagens tão decisivas quanto inovação e eficiência. Criou-se, à sombra do poder, um capitalismo sem risco pleno e sem concorrência plena. Um capitalismo de acesso. Há empresários que disputam mercado; outros disputam proximidade com Brasília. O empresário deixa então de atuar apenas na economia real. Passa também a operar dentro da anatomia estatal. Nada muito explícito. O compadrio moderno usa linguagem corporativa, participa de fóruns internacionais e fala em governança.
Quando isso ocorre, o Estado deixa de arbitrar e passa a selecionar vencedores. A fronteira entre público e privado dissolve-se numa névoa profundamente corrosiva para a confiança nacional. O efeito mais perverso não é apenas econômico. É civilizacional. Uma sociedade acostumada ao privilégio administrado perde a crença na igualdade perante as regras. O empreendedor desanima. O cidadão desacredita. O talento migra.
Romper esse ciclo exige mais do que reformas ocasionais. Exige reconstruir a relação entre Estado e sociedade sobre bases republicanas: menos discricionariedade, menos privilégios invisíveis, menos dependência de favores institucionais. O Estado não pode continuar funcionando como porteiro seletivo do capitalismo brasileiro.
Wagner Gomes – Articulista











