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A política como seita 

Por Paulo César de Oliveira
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Imagem Magnific.com

Wagner Gomes 

A polarização política transformou-se, em grande medida, em profissão de fé. O eleitor já não escolhe um projeto: adere a uma seita. A política assume ares de culto e o líder é elevado à condição de salvador da pátria. Questionar o chefe é heresia; reconhecer uma qualidade no adversário, traição. Os fatos passam a valer menos que as palavras de ordem, e qualquer notícia inconveniente é descartada como mentira, perseguição ou conspiração. A política perde a capacidade de corrigir seus próprios erros porque a seita não admite erros — apenas inimigos. O líder messiânico alimenta-se desse fanatismo. Apresenta-se como o único capaz de salvar o país, derrotar o mal e restaurar uma grandeza perdida. O salvador não precisa explicar; basta apontar culpados. É aí que o antagonismo deixa de ser democrático e se torna moral. O adversário não está apenas errado: é perverso, corrupto, antipatriótico ou desumano. A convivência política dá lugar a uma guerra entre santos e demônios, na qual a ética deixa de ser princípio e vira arma seletiva: rigor para os inimigos, indulgência para os aliados. A corrupção do adversário provoca indignação; a do companheiro recebe silêncio, desculpa ou malabarismo verbal. Como sair desse círculo? A saída começa pela despersonalização da política. O país precisa discutir políticas públicas, resultados e instituições, não a suposta santidade ou perversidade de seus líderes. Também é necessário recuperar o valor da dúvida. Uma democracia madura depende de cidadãos capazes de desconfiar até daqueles em quem votaram. Apoiar um governante não significa absolvê-lo previamente de todos os erros; criticá-lo não significa aderir automaticamente ao campo adversário. A mesma régua deve medir aliados e opositores. Quem condena abuso de poder de um lado não pode celebrá-lo quando praticado pelo outro. Sem essa simetria moral, o debate público continuará sendo apenas uma disputa de torcidas, cada qual indignada com os pecados alheios e cega para os próprios. A imprensa, as universidades, as igrejas, as escolas e as redes sociais também têm responsabilidade. Precisam estimular pensamento crítico, não dependência emocional; confronto de argumentos, não fabricação de inimigos. A educação democrática deveria ensinar que discordar não é odiar e que negociar não é capitular. O Brasil tem problemas grandes demais para caber nas trincheiras ideológicas. A saída está na firmeza sem fanatismo, na crítica sem ódio e na defesa das instituições sem idolatria. Democracia não exige que todos pensem da mesma forma; exige apenas que ninguém se julgue autorizado a destruir o país para salvar sua própria seita. O Brasil não precisa de salvadores da pátria. Precisa de cidadãos menos devotos, líderes mais fiscalizados e instituições mais fortes que qualquer personalidade. Na política, fé em excesso costuma produzir razão de menos.  (Imagem Magnific.com)

Wagner Gomes – Articulista 

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