Renata Araujo Donato
Um sopro de desespero exalado pelo seu rosto longitudinal, naquela tarde cinzenta, deixou claro para ela a impossibilidade de dar continuidade a qualquer cuidado que até então era chamado de amor. Percebeu em sua sobrancelha de pelos ásperos a linha reta, sem movimento algum correspondendo à estrada de sua vida. Não havia morros uivantes ou qualquer sinal de uma lombada, uma curva acentuada. Era linha de longas distâncias, uma chatice sem novidade que pudesse envolvê-la com novos repertórios. Era o desespero do desespero para ela. Talvez – ela pensava – ele encontre alguém que entenda sua maneira aplainada de ser: um silêncio no asfalto.
O silêncio, ela acolhia; era uma outra coisa, a qual tentava dar nome e não vinha exatamente a palavra justa para colocar nessa prosa. Sabia ficar nele, estacionava sem receio de se embebedar. Era uma outra dissonância que barulhava dentro dela. Desconfiava que era a falta de vontades. Tudo o que recebia da vida era ela, a vida, que havia trazido para ele, e vinham como ondas no mar. Mesmo assim, não era mar agitado; estava mais para baía de Guanabara. Não tinha um alcance para um outro patamar, um novo desafio; sentia o bicho-preguiça tentando se mover. Fechou os olhos e, antes de abri-los e ver novamente sua sobrancelha reta, suspirou na busca do ar mais interno que pudesse alcançar.
Já tinham vários anos de relacionamento e tudo o que ela estava dizendo já fazia parte dessas estradas longas, meio cenário de deserto, cactos e pedras, secura. Sentia sua boca amarga, sedenta. Durante muitos anos, acolheu sua forma de ser, seu ser enfadonho. Entendia que, se injetasse ar em seus pulmões amolecidos, poderia garantir mais vida para os dois. Bombearia os dois? Sua vitalidade entendeu que sim e escreveu seu caminho, os seus caminhos; trilhou sem titubear, desenhou nas areias quentes do deserto do Atacama as vastas sendas que desapareciam à medida que os ventos alísios chegavam do leste. Durante um bom tempo, usou das corcovas do camelo para continuarem vivos.
E o deserto era a pura distância que se revelava para os dois. Ela foi boa na arte de driblar todos os palitinhos. E foi feliz no arranjo que criou, mas passou a notar um cansaço que caía sobre ela nas noites estreladas do Atacama. Lá, onde a experiência é marcada pela escuridão total – melhor lugar para a observação astronômica –, e foi nessa clarividência, com tamanha iluminação das estrelas marcadas pelo contraste luz e sombra, que enxergou seu vulto sobre as areias. Conjunto de partículas de rochas degradadas. Sua – camada rochosa, degradada. Nas várias tentativas de atravessar o deserto, foi deteriorada, rebaixada, destruída de forma física e moralmente; sua dignidade ficou longe, logo no início do caminho – seguiu em frente sem pensar ou reconhecer-se nesse deslocamento. Era mais fácil acreditar que podia, que tinha o poder de mudar o outro, ou mesmo de se ajustar duplamente.
O que, de certa forma, a deixava tranquila por toda travessia era a consciência de suas conduções – mesmo depois de tanto movimento, descobrir sua incapacidade. É impossível mudar o outro. Essa frase não mais saía do registro de sua memória; mais que isso, virou mantra. No deserto de Atacama, ela já desejava que ele encontrasse outra cama, para se aninhar, para repousar seu sono tranquilo, sem muitos desejos. Seria a mais bem-vinda solução. Não mais precisar olhar atentamente seus passos leves, sem muitos registros nas pegadas deixadas. A complacência enfadonha de ter no sorriso meio arqueado, contrastando com a linha reta do horizonte no meio de sua testa, o agradecimento de suas mãos unidas sobre o peito, sua cabeça baixa em sinal de gratidão chegava ao seu limite. Não mais.
E um não, direcionado a ela. A ela que se propôs estar nesse lugar tão medíocre e tão onipotente ao mesmo tempo. Preferia agora sentir sua incapacidade, suas meias-verdades, seu sangue bombeando apenas a própria veia. Como as relações são construídas! Ou melhor! Como construímos nossas relações e que lugares resolvemos atuar. Olhou para ele, com o sol rachando acima de suas cabeças, agradeceu o tempo que tiveram juntos, falou do crescimento que cada um teria que fazer estando longe um do outro; não conseguia mais viver nessa simbiose. Às vezes, separar de certos lugares precisa de um espaço físico. Era o que ela precisava naquele momento. Ele não teve tempo de absorver o que ela colocou em questão; estava fora, bem distante de seu entendimento. Caberia agora a ele querer mudar sua história, sua posição no mundo – isso se o que ela disse realmente chegasse a incomodá-lo –, mas já não cabia a ela nenhum movimento a mais. Saiu sem olhar para trás, tirou o véu que carregava sob seu rosto, sentiu o vento quente espalhar por sua pele. (Imagem Renata Araújo Donato)
Renata Araújo Donato – Psicanalista, escritora e cantora.











