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O vilão é o conluio

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 28 de março de 2026
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(foto reprodução blog de viagem)

Wagner Gomes 

Um debate que vem sendo viralizado em vídeos é sedutor porque oferece um culpado único. É confortável. Simplifica o mundo. Aponta o dedo e encerra o assunto. Segundo essa lógica, o vilão seria o governo; o empresário, uma vítima produtiva esmagada por impostos e burocracia. Parece elegante. É raso. A realidade é menos instagramável. O conflito entre governo e empresário não é moral. É institucional. Não se trata de “bons” e “maus”, mas de incentivos. Onde as regras são ruins, os comportamentos também serão. Comecemos pelo governo. Ele se torna vilão quando cobra muito e entrega pouco. Quando transforma imposto em confisco e orçamento em caixa-preta. Quando regula para proteger interesses organizados e não o interesse público. Quando troca política pública por populismo fiscal. Nesse ambiente, o Estado deixa de ser árbitro e vira sócio ineficiente — exigente na arrecadação, irresponsável no gasto. O resultado é previsível: crescimento anêmico, informalidade crônica e descrença geral. Mas parar aí é cair na meia-verdade conveniente. O empresário também vira vilão quando troca risco por privilégio. Quando prefere subsídio à concorrência. Quando pede proteção alfandegária, crédito subsidiado, isenção seletiva e perdão fiscal — e chama isso de “defesa da indústria nacional”. Quando socializa prejuízo e privatiza lucro. Não é capitalismo. É compadrio. Um sistema em que o mérito perde e o lobby vence. No Brasil, o problema não é o empresário em si, nem o Estado em abstrato. É a simbiose perversa entre ambos – ou o parasitismo. Um alimenta o outro. E, também, se alimenta do outro. O governo cria regras confusas; empresários espertos aprendem a navegar nelas. O governo aumenta impostos; setores organizados negociam exceções. O discurso que absolve automaticamente o empresário e demoniza o Estado ignora um detalhe incômodo: grande parte do empresariado brasileiro quer um Estado a seu favor. Quer crédito barato, proteção contra concorrência, contratos garantidos, risco minimizado. Quer desoneração – uma palavra insossa para o saboroso privilégio de não pagar imposto. Por outro lado, um Estado que trata todo empresário como suspeito explora a base produtiva e demoniza o lucro ao criar exatamente o ambiente que diz combater: menos investimento, menos produtividade, menos crescimento. O verdadeiro vilão não é uma pessoa. É o arranjo. É o conluio entre empresários e governos. São instituições mal desenhadas, incentivos tortos e uma cultura que confunde empreendedorismo com privilégio e política pública com improviso. Enquanto o debate insistir em escolher um bode expiatório — “o empresário” ou “o governo” —, nada muda. O país segue girando em falso, discutindo culpados em vez de consertar regras. Vilões, no Brasil, nem sempre usam capa. Na política, o vício cardinal não reside nas coisas, mas no olhar que as apreende: não percebemos o mundo tal qual é, senão conforme somos. E, para a vasta maioria, essa lente subjetiva turva — quando não distorce — a própria tessitura do real. (Foto reprodução blog de viagem)

Wagner Gomes – Articulista 

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