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O vice perfeito continua no lugar 

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 3 de abril de 2026
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Itamar Franco (foto: José Cruz/ Agência Senado)

Wagner Gomes 

Contam que, numa roda de veteranos da República, alguém propôs um brinde aos vices — esses inquilinos do andar de cima que vivem no térreo da história. São essenciais — disse um. Sobretudo quando não são — respondeu outro. Lembraram de João Goulart, que começou vice e acabou protagonista por ausência alheia, como quem herda um palco sem ensaio. Pedro Aleixo foi o avesso do poder. Quando o regime fechou os punhos, coube-lhe o lado de fora — lembrança sutil de que, por aqui, o vice é o primeiro a ser afastado da própria sucessão. E partiu como entrou como se dissesse: “não direi nada além do que já não disse”.  E Aureliano Chaves? Esse flertou com o poder como quem namora pela janela: viu, acenou, mas não entrou. Veio Itamar Franco (foto José Cruz/ Agência Senado)), que assumiu no susto e governou como quem encontra a casa pegando fogo — e descobre, no meio do incêndio, onde fica o extintor. Já Marco Maciel elevou o cargo à arte do silêncio: foi o vice que nunca precisou ser notado para ser indispensável. E quando o vice fala demais? A história responde. Apontaram para Michel Temer, que saiu da moita para o texto principal com a precisão de quem conhece a gramática do poder. Hamilton Mourão, às vezes, parecia comentar o governo como quem assiste de dentro — uma espécie de narrador em campo. A roda então silenciou ao mencionar Geraldo Alckmin. Confirmado na vice, já não é hipótese — é peça assentada. Discreto, metódico, quase invisível — o vice ideal, diriam os manuais. Num ambiente em que o ruído cobra preço, sua essência está em não disputar o centro. Alguém comentou, num jantar de governistas: o vice hoje é estabilidade. Outro corrigiu: não. É a expectativa em repouso. Alckmin sorriu com aquele meio sorriso que não confirma nem nega — arquiva. Ele conhecia todos os caminhos, inclusive os que não levam a lugar algum. Enquanto ministros falavam alto e o presidente ocupava o palco, ele calibrava silêncios. Sabia que, no Brasil, o poder às vezes escorre pelas frestas — e o vice é o recipiente. — O senhor ambiciona mais? — provocaram. Ele ajeitou o paletó, como quem organiza o destino: ambição é pressa mal-educada. O problema do vice perfeito — arriscou alguém — é que ele não cria problema suficiente para ser necessário. Riram pouco. Em ano de eleição, o riso é cauteloso. Fala-se agora nas novas chapas, nos nomes que subirão ao segundo andar com vista para o imprevisto. Procuram-se vices que somem, que falem, que calem, que garantam, que não apareçam — uma lista de qualidades que se anulam com elegância. E a roda gira. Ninguém percebe ainda, mas já diminuiu o barulho. Talvez porque, ali, sentado à beira do poder, está quem entende seu truque mais antigo: ele nunca sai de cena — apenas muda de protagonista. No Brasil, até o silêncio, quando funciona demais, deixa de ser defeito e vira critério de permanência. 

Wagner Gomes – Articulista 

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