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Sem lenço, com documento e sem tutela

Paulo César de Oliveira
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Nikolas Ferreira

A caminhada de Nikolas Ferreira (foto: Instagram) sob o mote Acorda Brasil deixou rapidamente o terreno do símbolo para ocupar o da estratégia. Não foi performance improvisada nem catarse episódica. Foi metódica. Passo firme, palavras curtas, coro fácil. Política desenhada para a rua — e para a imagem. Um hino civil em andamento, mais próximo da lógica de Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores e Alegria, Alegria do que de qualquer programa partidário: caminhar, cantar, agregar. O percurso revelou cálculo. Ao cruzar Luziânia, a marcha deixou de ser deslocamento e virou consagração. Não houve plateia; houve adesão. Comércio transformado em arquibancada, janelas em camarotes, celulares em tochas digitais. A cidade respondeu em uníssono. Ali, o discurso cedeu lugar à cena. A política saiu do texto e entrou no enquadramento — reels com gente de carne e osso. A culminância veio em 25 de janeiro de 2026, em Brasília. Sob chuva intensa, a manifestação confirmou o que a estrada já indicava: há uma base mobilizável, disciplinada e disposta ao confronto narrativo. Não nasceu do nada. Foi ensaiada passo a passo. Marchar não era o meio; era o argumento. Nikolas parece ter entendido uma regra antiga: na política, como na natureza, nada se perde — tudo se transforma. Absorveu, inclusive, do adversário Lula a capacidade de moldar narrativas para alterar circunstâncias. Reaproveitou o cancioneiro de protesto da ditadura, quando a arte funcionava como megafone e a rua, como tribunal. Saiu caminhando contra o vento, sem lenço e com documento. Vieram trovoadas. Seguiu. “Eu vou, porque não, porque não?” — e a multidão respondeu andando. A engrenagem não é inédita. A Marcha sobre Washington, de Martin Luther King Jr., ensinou que a rua pode anteceder a lei e constranger o sistema pelo número, pela moral e pela narrativa. Causas distintas, contextos opostos, método semelhante. Caminhar, cantar, chegar ao centro do poder. Resta saber se o capital simbólico se converterá em poder institucional. Mas um dado já se impôs: ele se tornou o primeiro político da direita, com luz própria. Sua liderança se firmou à revelia de Jair Bolsonaro. Nikolas entendeu algo elementar e raro: na política, quem sabe faz a hora. Não espera acontecer.

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