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Zema quer um Estado que não atrapalhe. Simples assim

A possibilidade de implantar um novo jeito de governar, com um Estado mais enxuto, desburocratizado e sem privilégios, levou o empresário Romeu Zema a se envolver com a política. Ele disputa o governo de Minas pelo Partido Novo e afirma que já está inovando ao não usar os Fundos Eleitoral e Partidário, criados para financiar os partidos políticos e as campanhas eleitorais. Convidado do Conexão Empresarial – Série Especial Eleições 2018, evento promovido pela VB Comunicação, Zema (foto) defendeu suas propostas para empresários, políticos e autoridades.

 

Como romper a distância que separa os pequenos partidos do eleitor?

Realmente é uma disputa muito desigual, mas que não me intimida. Gosto de dizer que, quando comecei em 1991, havia alguns Titãs no varejo, que eu respeitava muito e admirava. Tirei muitas lições com eles. Muitos vão se lembrar da Casa do Rádio, Arapuã, Kit Eletro, Modelar, Mesbla, empresas centenas de vezes maior do que a minha Passados 20 anos eu vi que a capacidade de trabalho resolve muito mais coisas do que o poder econômico, porque essas empresas tinham todo o poder econômico. Eu gosto de salientar que não é uma eleição, não é um mandato que vai resolver os problemas de Minas e do Brasil. Nós estamos plantando uma semente que vai frutificar. Dentro de dois anos nós vamos eleger muitos prefeitos e vereadores no interior de Minas. Nessa minha caminhada, essa peregrinação pelo interior, nós estamos plantando isso e vamos colher os frutos. A questão de eu ser ou não ser eleito é um detalhe nessa trajetória, que não vai nos impedir de sermos agora ou daqui a quatro anos. Uma hora vai acontecer.

 

Hoje nas Câmaras e Assembleias a prática é a de compra de votos. Como mudar essa prática sem uma maioria na Assembleia Legislativa?

O Executivo, por si só, consegue fazer muitas mudanças. Para simplificar a cobrança do ICMS depende só da Secretaria da Fazenda, não precisamos da aprovação da Assembleia. São várias ações que o governo consegue levar adiante. Sempre fui aberto à negociação. Passei a minha vida toda negociando com fornecedores, com bancos, de quem eu sempre dependi, pois a minha empresa sempre trabalhou com uma alavancagem pequena, sempre negociei com empregados, com sindicatos. Sou uma pessoa aberta. Vou querer conhecer cada um dos 77 deputados estaduais de Minas e vou deixar claro para ele, e eles vão perceber que, se eu fui eleito é porque o povo está querendo mudança, e nenhum outro representa mudança ou ruptura com o passado quanto eu. Seria bom analisar o que tenho proposto, porque não terei essa votação à toa. Isto vai representar uma mudança na mentalidade de vários de nossos deputados estaduais, e nós vamos eleger de cinco a sete deputados estaduais. Tem muita gente nossa trabalhando. Está longe de ser a maioria, mas vamos exercer influência. Tenho observado nas minhas andanças que tem muita gente que, como eu, nunca participou de política e está começando a participar, porque está sentindo na pele como pode doer um governo corrupto e impotente como o nosso aqui, que perdeu empregos, faliu empresas, empresas encolheram. Estamos mais críticos e espero que selecionemos melhor a próxima Assembleia Legislativa. Será fácil? Não. Será impossível? Nunca.

 

Temos 853 municípios. Sendo eleito, o senhor vai incentivar projetos de lei para diminuir o número de municípios?

A quantidade de municípios no Brasil e em Minas é um exemplo claríssimo de como nossos políticos sempre conduziram a coisa pública. Nunca houve necessidade de tanto prefeito, de tantas Câmaras Municipais como temos hoje. Dos 853 municípios de Minas, em pelo menos 300 o que é arrecadado não é suficiente para pagar o funcionalismo público. Essas cidades vivem de repasses. Vejo que se a população realmente atentar que naquela pequena cidade que tem quatro mil habitantes é melhor ter um posto de saúde que funcione bem, uma escola boa, do que uma Câmara Municipal que só tem custos e assuntos que poderiam ser resolvidos por uma cidade maior vizinha. A lógica do setor público no Brasil é igual a de um câncer: de crescer de forma desordenada. É isto que nós temos visto. Nunca tivemos necessidade, foram criadas prefeituras para que algum afilhado de deputado fose eleito, empregar parentes, foram criadas para atender a alguém e não em benefício da população. Nós temos distritos em Minas Gerais que são maiores do que as cidades e nem por isso tem serviço público pior. Será uma coisa difícil, que nem tenho comentado, esta coisa de reduzir municípios. Temos que lembrar que hoje, no Brasil temos capitais que são maiores do que alguns estados, em termos de receita. E quando você vai para esses estados, tem-se todo um aparato, parece que criaram uma estrutura no Brasil que se tem uma prefeitura, tem que ter prefeito, vice-prefeito, Câmara Municipal, vereadores e toda uma estrutura. Talvez nós devamos colocar patamares, da mesma forma que uma rede de varejo. Tem lojas grandes que tem gerente, subgerente e lojas pequenas que dispensam esse aparato. A estrutura política não faz essa diferença, ela trata todos igualmente. É necessário rever e mesmo nas cidades onde não houver fusão, é preciso fazer uma revisão para menos dessa estrutura administrativa. Temos cidades que tem oito mil habitantes e tem vereador com salário de R$ 4 mil. É muito? Não. Mas esse vereador trabalha duas horas por mês. Quem ganha R$ 2 mil por hora? Os vereadores do interior ganham.

 

Quais medidas devem ser tomadas no início do governo que sinalizem para a sociedade e investidores, que haverá um esforço na busca do equilíbrio das contas do Estado?

A primeira coisa será cortar praticamente 80% ou mais dos cargos comissionados criados pelo atual gestor, lembrando que Minas Gerais virou um cabide de empregos de pessoas que perderam a eleição do partido do nosso atual governador, em todo o Brasil. Estão na folha de Minas Gerais pessoas que disputaram eleição no Maranhão, no Piauí, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso. Tem gente do Brasil todo, como um prêmio de consolação para quem é do partido do governador. Com toda a certeza isso será cortado imediatamente. Um secretariado técnico também vai dizer que o governo está preocupado com eficiência e não em atender interesses políticos. Algumas são ações simbólicas, mas acabam com o peso. Já falei que quero ser o governador, mas vou morar na minha residência e não no Palácio. Quero colocar uma pá de cal nessa cultura da nossa classe política de que eles fazem parte de uma corte. A monarquia acabou tem 130 ou 140 anos e eles ainda se julgam parte da corte. Sempre falei na minha empresa que o capitão é o último que sai do navio. Só vou receber o meu salário quando o salário do funcionalismo estiver em dia.

 

O senhor fala em acabar com privilégios, mas como fazer isso se alguns são direitos adquiridos e outros de interesses corporativos difíceis de serem atacados?

Não tenho uma solução mágica. Tenho muita vontade de acabar com isso. Vou combater veementemente, inclusive dando o exemplo, vou enfrentar pressões, mas vou enfrentar isso até o fim do meu mandato. Não são direitos adquiridos, são privilégios adquiridos por pressão de muitas classes e corporações. Faz parte do nosso programa mudar isso. Será uma luta muito difícil, mas vamos enfrenta-la, junto com o Legislativo. Não é justificável tantos penduricalhos no setor público. Em outros países, quem trabalha no setor público ganha normalmente 15% acima do que o setor privado e aqui no Brasil é 60% ou 70% a mais. Nós estamos virando um país onde todo jovem quer prestar concurso público e não ser um empreendedor. Quem vai pagar amanhã esse salário se não houver empreendedor e pagadores de impostos? Precisamos começar a estancar e reduzir dentro do que for possível. Vamos enfrentar muita pressão, mas temos que caminhar no caminho do que é certo. Mudar a cabeça das pessoas vai levar alguns anos.

 

Qual a maior dificuldade para fazer campanha sem o uso dos Fundos Partidário e Eleitoral?

Realmente os Fundos Partidário e Eleitoral são a prova claríssima da legalização, da facilidade para quem está lá dentro. Eles falam o seguinte: se não existir o Fundo Eleitoral e Partidário, o poder econômico é que vai direcionar as eleições, porque os que tem mais é que terão condições de se eleger. Mas nós temos de lembrar o seguinte: tenho conversado com pessoas de todos os partidos nas minhas andanças e na maioria dos partidos, que estão em segundo ou terceiro mandato, recebem R$ 3 milhões, R$ 4 milhões para a sua campanha. Aquele que vem como bucha de canhão, um marinheiro de primeira viagem, recebem R$ 50 mil para fazerem a campanha deles. Será que estão tratando igualmente? Esses Fundos estão sendo algo democrático, ou igualitário, como pregam? Com certeza que não. O Fundo é destinado ao continuísmo. A minha campanha será, com toda certeza, a campanha mais barata de Minas Gerais, de todos os concorrentes, porque não temos o Fundo Partidário. O que tenho custeado são as minhas viagens, as minhas andanças por Minas Gerais, lembrando que o Partido Novo funciona como um time de futebol, nós temos de jogar bem para termos torcida para termos pagantes. Estamos caminhando para 24 mil filiados contribuintes. Somos um partido mais digital e cada um contribui com o que pode e entendemos que partido político deveria funcionar como uma entidade privada. Ninguém que tem empresa recebe recurso público. Se o caminhão da minha empresa tombar e poluir alguma coisa, vou responder criminalmente. Se alguém de um partido político cometer uma barbaridade, ninguém lá dentro responde por nada, ou se pelo menos, se exigisse essa responsabilidade para os partidos, uma prestação de contas. O que vejo é essa distribuição desigual dos recursos ou o dinheiro ir para o bolso de alguém.

 

Uma das principais causas do descontrole das contas do Estado é a questão previdenciária, o senhor é a favor da reforma previdenciária?

Nós precisamos mexer na Previdência em dois pontos. Um deles é em igualarmos a Previdência do setor público com o privado. Meu pai tem 76 anos, recebe dois salários mínimos de aposentadoria e contribuiu a vida toda pelo teto. Algumas pessoas trabalham oito anos no serviço público e recebem R$ 50 mil por mês. Há uma concentração de renda enorme, uma distorção gigantesca. Temos de corrigir esse rombo até por uma questão matemática. Os nossos avós tinham uma expectativa de vida de 65 anos e trabalhavam até os 50 anos. Consequentemente o Estado pagava a aposentadoria deles até os 65 anos. Hoje a nossa expectativa de vida é de 80, 85 anos e continuamos, muitas vezes, aposentando com 50 anos. A conta, simplesmente não fecha. Já conversei com policiais militares e eles próprios, que estão beneficiados com aposentadoria precoce, eles falam que lá não é aposentadoria compulsória, é aposentadoria expulsória. É um privilégio que foi criado e se mantém. Sempre que vai mexer, tem alguém contra. É algo que precisa ser feito rapidamente e que vai ajudar a equilibrar as contas, não só no ano que vem, mas daqui a 10, 15 anos, e voltamos a dar segurança aos investidores. Nada dá mais segurança aos investidores do que as contas controladas.

 

A violência passou a ser uma das principais pautas dessas eleições após o atentado contra Jair Bolsonaro. A violência saiu do controle? Quais as suas propostas para o setor?

As causas da violência são diversas. Passa por uma educação melhor. No índice do IDEB, que é de zero a 10, nós estamos em 3,5, demonstrando que as escolas não ensinam adequadamente. Passa pelo mercado de trabalho. Muitos jovens que poderiam estar trabalhando, se tivéssemos uma economia mais pujante, estão na rua, andando em bandos, aprendendo coisas erradas. Passa também por um setor de segurança eficiente, que estamos longe de ter. Conversando com o pessoal da Polícia Civil e da Polícia Militar, fica claro que uma das grandes preocupações deles, talvez a maior, é acontecer de eles ferirem ou matarem um bandido ou uma pessoa e serem responsabilizados por isso, de responderem a inquérito, de serem exonerados. Isso traz uma insegurança gigantesca. Existe tecnologia que permite documentar toda a movimentação policial e mostrar se o policial agiu em legítima defesa ou não. Na nossa cultura, bandido passou a ter mais direitos do que quem está combatendo a bandidagem. Nós estamos falando em investimento baixíssimo. No sistema prisional tem muita melhoria a ser feita. 40% dos presos são pessoas de baixa periculosidade, pessoas que roubaram picolé. Se a Defensoria fosse mais ágil, eles estariam em liberdade condicional ou usando tornozeleiras eletrônica, deixando de custar os R$ 3 mil por mês, que cada detento custa. Vamos precisar fazer PPPs, porque sabemos que o Estado não tem dinheiro para investir em presídios, que estão hoje totalmente vulneráveis, com fugas, que ocorrem com frequência, e fazer uso em larga escala das Apacs, um projeto muito bom, que ficou desvalorizado e é onde a ressocialização é muito maior do que a dos presídios. Nós temos várias frentes para atacar.

 

Minas Gerais tem perdido muitas empresas devido a sua política tributária. O que é possível fazer para atrair investimentos para o Estado?

Simplificar a legislação de ICMS de Minas. Quero que ela, em vez de ser a mais complexa, seja a mais simples do Brasil. Isso só depende daqui, do Estado. Para que termos tantos artigos, tantas exigências desnecessárias. A revisão das alíquotas dentro do possível, diante das condições financeiras do Estado, deve ser necessária. Alguns técnicos da Secretaria da Fazenda me falaram que alguns setores são beneficiados indevidamente por serem amigos do “rei” e se isto estiver acontecendo, nós vamos ter que subir alguma coisa em alguns setores e diminuir de outros que não têm esses privilégios. Lembrando também da parte burocrática não só em relação aos impostos como alvarás e licenças. O senhor Modesto, da Drogaria Araújo, me contou que ficou quatro anos esperando a licença para abrir o centro de Distribuição em Contagem, para gerar mil empregos. Em um estado que tem uma prefeitura que trata um investidor assim, com certeza não está precisando de emprego. Se Minas parar de atrapalhar, de perturbar quem investe e gera empregos, já é um benefício muito grande. A legislação ambiental é outro terror no Estado. Sou favorável a preservação do meio ambiente, mas não quero que qualquer um que invista para formar um pasto, como acontece hoje, seja considerado um bandido ambiental à priori. Se o empresário for construir um posto de gasolina em uma área de pastagem ele passa a ser considerado um bandido. No caso de um investimento pequeno, a pessoa tem que seguir as regras ambientais, o Estado vai lá fiscaliza e multa. Se não fez certo adeque, se não deu certo de novo, lacre, interdite o estabelecimento, é assim que a coisa funciona no mundo. Aqui somos taxados de bandidos. Para grandes projetos e até para os pequenos, fazer o que deve ser feito o que já existe lá fora há muitos anos, fazer com que a empresa com potencial de poluir seja obrigada a contratar um seguro, para ressarcir o Estado caso algum sinistro ocorra. Se a Samarco tivesse feito isso há 10, 15 anos, o Estado já teria recebido recurso e, muito provavelmente, o acidente nem teria acontecido, porque os técnicos da seguradora teriam deito um trabalho muito melhor do que os fiscalizam pelo Estado, que muitas vezes são indicados politicamente. A questão não é tão difícil de resolver, mas falta vontade política. Os nossos políticos querem o contrário. Querem uma estrutura maior para colocar os que os estão apoiando nas eleições. O que eu quero fazer é um governo que signifique a ruptura com esse passado nosso. Nós já sabemos que a forma antiga de se fazer política no país não funciona. Se eu vou mudar tudo, eu não sei, mas vou fazer de tudo para fazer o que estiver ao meu alcance e muito provavelmente não pretendo disputar a reeleição, porque vou tomar medidas que vão contrariar a muitas pessoas. 

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