Wagner Gomes
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo (foto: Washington Costa/Ministério da Fazenda), prestou esclarecimentos sobre política monetária, inflação e juros – e recolocou o debate econômico brasileiro no eixo da realidade, ao demonstrar que a inflação não nasce no Banco Central. E isso, no Brasil, já é quase um milagre estatístico. Durante anos, criou-se a confortável fantasia de que os juros elevados seriam fruto exclusivo da vontade de tecnocratas insensíveis ou de uma conspiração do “mercado”. É uma narrativa sedutora politicamente, mas intelectualmente preguiçosa. A taxa de juros não nasce do capricho. Ela é consequência. E consequência, como ensinava a velha economia clássica, não se revoga no grito. Ou, num raciocínio entre o pleonasmo e a teratologia, vem sempre depois. O Brasil convive há décadas com uma contradição estrutural: deseja crescimento acelerado, crédito abundante, consumo forte e expansão do gasto público, tudo simultaneamente, mas sem aceitar os custos inflacionários dessa combinação. Nenhuma sociedade conseguiu sustentar esse modelo indefinidamente. A matemática fiscal, apesar de silenciosa, é implacável. Quando o governo amplia despesas de forma persistente acima da capacidade de arrecadação e da produtividade da economia, o resultado inevitável aparece sob três formas: inflação, desvalorização da moeda e aumento do prêmio de risco. O Banco Central, então, entra como bombeiro de um incêndio que não iniciou. A Selic alta é o extintor caro de uma combustão produzida, em grande parte, pela indisciplina fiscal e pela baixa eficiência estrutural do país. Há outro ponto raramente discutido com honestidade. O mecanismo de transmissão da política monetária no Brasil é imperfeito. Grande parcela do crédito opera parcialmente blindada da taxa básica. Há subsídios, direcionamentos, indexações automáticas e intervenções setoriais que reduzem a potência dos juros sobre a economia real. Resultado: para produzir o mesmo efeito anti-inflacionário observado em países organizados, o Brasil precisa de doses maiores do remédio monetário. É como tentar frear um caminhão carregado numa descida usando apenas metade dos freios. Além disso, o histórico inflacionário brasileiro ainda pesa na formação psicológica de preços. O empresário reajusta porque teme custos futuros. O trabalhador exige reposição antecipada porque conhece a corrosão do salário. O investidor cobra juros maiores porque sabe que o Estado brasileiro possui longa tradição de gastar primeiro e explicar depois. A credibilidade, em economia, possui valor monetário concreto. Países confiáveis pagam juros menores. Países erráticos pagam pedágio financeiro elevado. Por isso, o debate sério não deveria ser “por que os juros são altos?”, mas “por que o Brasil produz tantas condições para que eles permaneçam altos?”. A reação a esse estado de coisas exige maturidade política, responsabilidade fiscal, aumento de produtividade e estabilidade institucional. Não existe atalho ideológico para substituir fundamentos. Economia não é torcida organizada. É restrição, escolha e consequência. Ignorar isso produz discursos inflamados. Compreender isso produz prosperidade.
Wagner Gomes- Articulista











