A melhora na economia brasileira ainda não convenceu o CEO do maior grupo varejista brasileiro, Ronaldo Iabrud. No chão da loja, ou para quem atua direto com o consumidor, essa melhora ainda não foi sentida. Mas vários pontos têm melhorado o humor do consumidor, como a deflação de alguns produtos que faz com que sobre um pouco mais no final do mês e com isso, a venda de eletrodomésticos também entra no carrinho de compras. O problema é que apesar de muitos dizerem que a economia está se desprendendo da política, Iabrud (foto) acredita que não, e a recuperação lenta da economia é reflexo, justamente, da instabilidade política.
A economia brasileira saiu definitivamente da recessão?
Eu estou enxergando uma perspectiva de crescimento, mas no chão da loja nós ainda não vemos mudança. Evidentemente, estamos vivendo uma deflação muito importante, sobretudo alimentar. Nós tivemos uma deflação de menos 5% no mês de agosto, o mês de setembro deve vir com deflação e isto aumenta o poder aquisitivo. Apesar de ser ruim para nós que vendemos, nós enxergamos como sendo muito positivo porque cria o poder de compra e isso é muito bom. Estamos começando a sair da crise, mas precisamos esperar um pouco mais para sermos mais categóricos.
O consumidor está voltando às compras?
Como a deflação é muito importante, as pessoas saem da loja com um pouco mais de dinheiro e faz com que sobre dinheiro para comprar outras coisas. Está começando a ter um ânimo maior do consumidor. Mas ainda temos 13 milhões de desempregados, então, temos que ser prudentes.
Muitos dizem que a economia está se desatrelando da política. Isto está ajudando a melhorar os números da economia?
Só para te dar um exemplo: no mês de maio as nossas empresas perderam quase R$ 2 bilhões de valor, por causa do evento do 17 de maio (quando foi divulgada a gravação do empresário Joesley Batista com o presidente Michel Temer). Nós já recuperamos esse valor e as empresas valem mais do que valiam antes. No Brasil as coisas são muito voláteis. A economia está começando a ficar um pouco mais descolada, mas qualquer fato novo pode criar o que nós vimos em maio. Eu acho que, seguramente, a política está segurando a economia. A economia podia estar se deslocando um pouco mais, e ela está indo bem, mas ainda há uma incerteza sobre a política e isso gera uma cautela do ponto de vista econômico, sobretudo, em investimentos.
Essa segunda denúncia contra o presidente Michel Temer teve o impacto semelhante da primeira?
Não vimos nem na primeira. Nós vimos o mercado tombar, mas na loja não vimos nenhum efeito nem na primeira, nem na segunda denúncia. Isso gera um efeito que não é no curto prazo. Isso gera um retardamento de todas as ações que deveriam estar sendo implementadas pelo governo e esse retardamento faz com que não haja investimentos e, não havendo investimentos não se gera empregos e sem empregos não temos consumo, ou o consumo é retomado de forma lenta. Eu não acredito que a economia no Brasil vá se descolar 100% da política. Está melhorando, mas não descola.
Na comparação com o desempenho do grupo em 2016, 2017 será melhor?
Sim, 2017 será um ano melhor, porque nós fizemos o dever de casa em 2015 e 2016, como todos fizeram, para que as empresas ficassem melhores, mais adequadas e do tamanho do mercado. Em 2017, só o fato de não ser negativo, será 0,5 ou 0,6% positivo, então vai ser um ano melhor. Com a queda dos juros de 14% para 7% haverá um peso e um custo muito menores que a empresa carrega, então, seguramente, 2017 será um ano melhor.
Por outro lado, 2018 é um ano eleitoral, a questão política pode ter impacto novamente?
Acho que 2018 será melhor do que 2017. Ano político é ano em que se gasta mais e isso é positivo, porque se injeta dinheiro na economia, mas enquanto não tivermos uma definição clara de quem vai ser o presidente, se vamos ter um presidente que está querendo dar continuidade às reformas e está olhando para o país, enquanto não tivermos uma definição dessas nós teremos um ano bom, melhor do que 2017, mas não será ainda um ano espetacular como pode ser se nós tivermos um presidente alinhado com as reformas que o país precisa.
Ainda depende de quem vai conduzir o país a partir de 2019?
Acho que em toda economia em construção, que depende de muita infraestrutura, que acaba sendo muito atrelada ao governo - nós vimos isso na Alemanha, na França e no Brasil, sobretudo-, o próximo governante é muito importante para trazer investimentos para o país.
Os supermercados mudaram também. O Pão de Açúcar é um exemplo disso. O consumidor está mais exigente?
A demanda do consumidor é completamente diferente. Quem não acompanhar o que está na cabeça do consumidor, e você só pode fazer esse acompanhamento utilizando os dados que nós temos do que ele compra e o que ele deseja comprar na loja, não vai sobreviver.