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Investimentos X Meio Ambiente

O meio ambiente entrou na pauta, como um dos principais itens para atrair investimentos. Quem investe nessa área, tem mais chances de atrair novos empreendimentos do que os que a ignoram. Montes Claros é um exemplo dessa resposta dos investidores. A cidade passou por um processo de arborização e de recuperação da sua reserva ambiental, em especial das veredas cantadas por Guimarães Rosa, segundo o secretário de Meio Ambiente da cidade, Paulo Ribeiro (foto). Ele alerta que o Norte de Minas passa por um processo de desertificação e é preciso um esforço para resgatar o que as florestas de eucalipto estão destruindo, que são as árvores e plantas nativas.

Gestões relacionadas ao meio ambiente têm servido de parâmetro para novos investimentos. Como Montes Claros tem se preparado nesse setor?

Montes Claros é o primeiro município do Brasil a criar uma lei para preservar o meio ambiente pagando ao produtor rural por essa preservação, com uma moeda verde, chamada de eco crédito. Paga-se hoje R$200 por hectare para o produtor rural que proteger a sua floresta, com áreas de relevância ambiental definidas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. São as chamadas áreas de preservação permanente. O Norte de Minas está passando por um momento de desertificação acelerado. Já existem vários estudos da Universidade Federal da Bahia, da USP, da Unimontes, do Ministério do Meio Ambiente, constatando o processo erosivo que a região vem sofrendo. Provavelmente, nos próximos 10 anos, todas as veredas cantadas por Guimarães Rosa sumirão do Norte de Minas, porque está ocorrendo o rebaixamento do lençol freático e com isso, as veredas irão desaparecer. A vereda é o afloramento de árvores e a tendência é a de que elas desapareçam. Existe o plantio extremamente agressivo e sem o controle do Estado, nem pela Uni]ao, de monocultura de eucalipto em áreas de recarga, principalmente nas chapadas. O eucalipto absorve a água muito mais rápido do que a vegetação do cerrado. O cerrado para sobreviver precisa de 500 milímetros por ano. Tem região no Norte de Minas que chove no máximo 700 milímetros. Onde chove mais, chove mil milímetros e o local onde o eucalipto é plantado, a árvore absorve no mínimo, 800 milímetros de água e com isso não sobra o suficiente para a permanência do cerrado. O cerrado está morrendo de sede em todo Norte de Minas, inclusive em Montes Claros. O prefeito Humberto Souto tomou uma série de medidas de combate a questão hídrica. Nós estamos recuperando as estradas vicinais e transformando-as em estradas ecológicas. Pesquisa da USP mostra que 80% do assoreamento de córregos, rios e nascentes, são causados pela má conservação das estradas vicinais. São cinco mil quilômetros de estradas vicinais no município, que estão tendo todo um cuidado especial, com a linha de preservação de todas as nascentes do município e ainda com a construção de mais de três mil barraginhas para captação de água de chuva, para aumentar a reserva dos lençóis freáticos na região. O prefeito Humberto Souto vai terminar o primeiro mandato dele com criação de oito novos parques dentro da área urbana, com uma média de 10 hectares cada parque, trazendo um bem estar enorme para a população de Montes Claros. Foi criado, através de lei, o Vale Verde, que prevê ônibus de graça no domingo. Temos ônibus saindo da periferia da cidade, levando a população para essas áreas verdes. Isso está sendo uma maravilha e está trazendo uma melhoria para a qualidade de vida da população.

Há um envolvimento da comunidade?

Há um envolvimento da comunidade. Montes Claros é muito quente e nunca tinha tido uma política de arborização da cidade. Esse ano nós plantamos mais de 50 mil mudas dentro da cidade. Esse trabalho foi feito durante esses quatro anos. Nós fizemos, inclusive, um atlas ambiental que nos orienta para o plantio na cidade. A cidade hoje está extremamente arborizada, está bonita, com muitas flores, porque fizemos uma opção por ajardinamento, e a população tem respondido e tem participado. O horto municipal, que estava abandonado há mais de 10 anos, está produzindo mil mudas para distribuição para as famílias, na cidade e nos distritos.

Esse trabalho está sendo feito só em Montes Claros ou outros municípios também estão sendo chamados para esse tipo de ação de preservação e melhoria nas cidades?

Montes Claros está virando referência porque é um polo da região e influência desde o Sul da Bahia até o Noroeste e o Vale do Jequitinhonha. São 220 cidades que dependem do sistema de saúde e da educação. Temos 12 faculdades particulares e três universidades públicas. Montes Claros é uma cidade universitária e isso acaba formando uma massa crítica muito grande, que é exportada para os municípios da região. Nós fizemos um projeto que se chama “Crescendo Juntos”, que funciona com o nascimento de uma criança. A mãe ganha uma muda para plantar e isso sensibiliza principalmente a mãe e a cidade toda. A população hoje nos procura para transformar os lixões com o plantio de árvores. Nós também montamos uma oficina para aproveitar toda a sucata da cidade e estamos fazendo esculturas. Temos centenas de esculturas espalhadas pela cidade, pelos parques e nas rotatórias da cidade. A maior será inaugurada no Natal, que é a escultura de um catopé de 22 metros de altura. São coisas sofisticadas que estão acontecendo na cidade. Pegamos um artista da história de Montes Claros, que é o Rai Colares, conhecido internacionalmente, pegamos a obra dele e colocamos em um viaduto e todos que passam tm um impacto da obra do artista. Outro que será homenageado é o Constantin Cristof, com um auto retrato. Montes Claros está se transformando na cidade do verde, da arte e da cultura.

O meio ambiente está na pauta e há um temor grande em relação ao que está acontecendo na Amazônia que pode até alterar o clima do planeta. Montes Claros está atenta a esta questão?

Sem dúvida alguma. É preciso agir local e pensar globalmente. O problema, claramente, é que o governo federal, o presidente Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, estão favoráveis e confundem agronegócio com desmatamento. Esse governo está incentivando o desmatamento. São terras públicas que estão sendo griladas por especuladores e pelo agronegócio. Eles ficam falando que o Brasil tem muitas áreas protegidas, muito parque, mas esquecem que a Holanda, por exemplo, tem 14 vezes menos a área plantada do Brasil e tem 20% a mais de exportação do agronegócio do que o Brasil. A questão não é aumentar a área. Tem muita área degradada que deveria ser recuperada e ser usada pelo agronegócio. Esse Ricardo Salles tem uma tendência de desmontar tudo que foi feito nos últimos 30 anos. Tudo desde a Eco 92, quando o Brasil era respeitado na questão ambiental e era considerado em nível de política internacional e tinha respeitabilidade. Agora, está sendo tudo desmontado. É vergonhoso para alguém da área ministerial dizer vamos aproveitar a pandemia para deixar a boiada passar. Em outras palavras: vamos deixar desregulamentar tudo que nós construímos de bom e que virou referência mundial para que seja tolerado todo tipo de agressão ao meio ambiente e isso tem se agravado com os incêndios não só na Amazônia, mas em todo o país, porque conta-se com o apoio das autoridades.

A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos pode mudar e forçar o governo a rever a sua postura?

Acho que sim. Os estados Unidos têm condições de retaliar economicamente o país. Será preciso se sentar e negociar. Será aberta uma porta para a demissão do ministro do Meio Ambiente e forçar uma mudança de atitude do governo e colocar alguém mais identificado com a causa.

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