Blog do PCO

Rudá Ricci:  é hora de uma nova geração ocupar espaço

Por Paulo César de Oliveira
AGT 0001 26A AF Banner 728x90px
Ruda Ricci (foto Ricardo Machado  IHU

O sociólogo Rudá Ricci (foto: Ricardo Machado/IHU ) faz uma leitura das eleições de 2026, aponta o esgotamento de uma geração política e a chegada de novos protagonistas. Segundo ele, as urnas deram um recado: é hora de abrir espaço para outra geração ocupar a política e apresentar novas respostas para o país.  Ele analisa a vitória de Cleitinho em Minas e o desgaste do modelo Romeu Zema. 

O que as urnas disseram nestas eleições sobre Minas Gerais e o Brasil? 

As urnas disseram que a minha geração (1962) tem que ir para casa. Nós já demos tudo o que tínhamos que dar. Chega, é hora de abrir espaço para os mais jovens. O Centrão elegeu o maior número de deputados e senadores, mas os campeões de votos não são do Centrão. Estão na faixa dos 30 anos. Há uma avalanche dizendo que chegou a hora de outra geração ocupar espaço.

Quem é essa geração com potencial de renovar os quadros políticos do país?  

Jovens que não estão automaticamente subordinados a partidos. Eles não querem apenas participar das organizações políticas. Eles se posicionam contra a política que consideram ultrapassada. É uma geração marcada pela descentralização, pelo espontaneísmo e pela irreverência. Alguns pesquisadores chamam esse fenômeno de enxameamento: as pessoas se mobilizam de repente, surpreendem todo mundo e depois, desaparecem. É o estilo de política do século 21 marcado pela provisoriedade.

A questão é saber se essa geração conseguirá formular propostas para o país, para além das próprias demandas. Essa renovação vale para a direita e para a esquerda. A extrema direita não deve ser confundida com a direita tradicional, que considero velha. A pauta continua a mesma dos anos 1990: austeridade, controle das contas públicas e cortes em políticas sociais. Não mudou nada. 

Podemos esperar o fim da polarização, um ambiente mais ameno no país? 

Não tenho expectativa de que a polarização diminua rapidamente. Pode haver uma amenização de parte do bolsonarismo e a liderança passar ao Tarcísio de Freitas e à Michelle Bolsonaro, que são mais negociadores e menos agressivos. Mas existe uma parcela do eleitorado que é extremista. Há setores políticos e parlamentares que podem manter essa base mobilizada. 

E o que o eleitor quer de seus representantes para 2027 a 2030? 

Existe uma mudança nas expectativas, em que já não basta aquele que dê uma casa ou um benefício social. A pessoa também quer comprar uma moto, viajar, abrir um negócio e conquistar autonomia. Quer uma vida extraordinária! Mesmo aqueles que estudaram e melhoraram de vida começam a questionar se a formação acadêmica oferece o retorno que esperavam. E para muitos, não passam a considerar o empreendedorismo como alternativa.  Há uma pesquisa relatada no livro Brasil da Maioria, de Renato Meirelles, que ilustra isso: a mulher que empreende não quer um curso profissionalizante, ela quer uma mentoria de outra mulher que passou pelas dificuldades de um negócio e conseguiu superá-las. É isso que a política ainda não entendeu: que precisa falar com estas pessoas. 

Qual sua análise do desempenho do senador Cleitinho, futuro governador de Minas; Mateus Simões, atual governador do Estado, e do ex-governador Romeu Zema. O que o futuro aponta para eles?

O Cleitinho representa uma espécie de mineiro médio que consegue transitar entre diferentes grupos. É um estilo que se aproxima da tradição mineira de conciliação. Ao mesmo tempo fala de questões concretas, como o fim da escala 6×1, a partir da própria experiência, criando identificação com o trabalhador.  O grande desafio de Cleitinho será transformar a identificação popular em governo. Corre o risco de se desgastar ou ceder às pressões políticas. O Zema traz um “modelo” de São Paulo, que não tem nada a ver com a história de Minas, nada. Um cara agressivo, que fala exagerado, isso não é mineiro.  O mineiro é comunitário: conversa com a família e com as pessoas próximas antes de formar opinião. Esse processo é lento, e as características regionais são muito diferentes.  

O que deu a eleição a Lula, ou levou à derrota de Flávio Bolsonaro? 

Entre os fatores, o segundo turno da campanha do Lula conseguiu desconstruir uma parte dos valores que o bolsonarismo dizia defender e as pessoas começaram a se desgarrar. Os debates também foram muito ruins para o Flávio, que tomou várias decisões erradas que influenciaram no resultado. Os velhinhos e mulheres se revoltaram (ao verem um idoso ser desacatado ao vivo) e decidiram atender ao apelo dos netos e foram votar. 

Raquel Ayres

COMPARTILHE
728x90

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

News do PCO

Preencha seus dados e receba nossa news diariamente pelo seu e-mail.