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Sob o céu do sertão

Paulo César de Oliveira
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Renata Araujo 

Deitei meu corpo sob o céu estrelado do norte de Minas. É reconhecido por ter um dos céus mais limpos e propícios para a observação astronômica no Brasil. Apaguei todas as luzes ao meu redor e foi a olho nu que passei a observá-lo. Senti meu corpo colado ao chão, junto à terra, senti seu calor ainda emanando o sol que se espalhou vivo por toda a extensão durante o dia. Sem dar descanso ou um tempo de folga ele se apresenta como o rei do sertão. Sua força intensa, e um certo sadismo percorre os solos desse reinado daqui. 

Voltei a contemplar o céu, cujo brilho despertava em meus olhos diversas memórias da infância, que afluíam à minha mente na cadência do tempo das estrelas. Uma sensação prazerosa de olhar o mundo de forma mais ingênua tomou meu corpo e por um instante, um breve instante, antes mesmo de retornar a realidade da vida, pude sentir o que se chama deleite. E fiquei ali suspensa olhando as estrelas, imaginando o tamanho do universo, as Três Marias, as Constelações, e sentindo minha pequenez. De qualquer maneira foi um tempo de júbilo, até me perder nos pensamentos sombrios da outra face da vida.

Olhando para o céu concebi sua dimensão e que ele abarcava todos os acontecimentos. De lá de cima ele assistia tudo de um canto a outro. Não sei se é boa essa sensação de pálpebras sempre abertas, sem que os olhos pudesse fechar para o descanso. Haviam as guerras, a fome, as matanças, os horrores da maldade do homem, os estupros, as guerras locais, as guerras silenciosas que também ecoavam em seus ouvidos mais sensíveis. Será que para de enxergar quando o sol adormece? Como ele enxerga o sertão lá de cima?

E tantas perguntas foram sendo feitas uma atrás da outra dentro de minha cabeça que até então descansada pelas luzes das estrelas e a imensidão do universo, encheu-se de indagações e inquietudes. Como é difícil nos permitir ficarmos em paz. Agora quem queria fechar os olhos para isso tudo, era eu. Uma vez que você passa a enxergar o que se apresenta reluzente, nunca mais deixa de ver. Recordo-me da fala de meu pai – Presta atenção no tabuleiro de xadrez! – Mas que xadrez? – eu me perguntava na época, com os meus olhos e meus ouvidos bem cerrados.

Demorou um tempo para abrir as vias do saber, e já não bastava as próprias feridas narcísicas que Freud havia citado. A ferida Copernicana – a Terra não é o centro do universo, a ferida Darwiniana – o homem é parte da evolução animal, não uma criação divina especial e a ferida psicanalítica – o Eu (Consciente) não é senhor em sua própria casa, sendo governado pelo inconsciente. 

Além dessas que já são um soco bem aventurado, escutei novamente a frase -Prestem atenção no tabuleiro de xadrez! Isso aconteceu enquanto escutava uma aula de geopolítica com o professor Hoc. Pensei:recalcar novamente essa frase e tudo o que por traz dela revela já não existe mais a possibilidade, eu já havia ouvido, e minha atenção ficou mais aguda. Confesso que foi um passo difícil.  À medida que levantamos o véu, nenhum outro tecido, armadura, proteção poderá nos proteger do que está revelado, a não ser que você caia em defesa profunda pedindo abrigo das realidades da vida, das realidades do homem, de suas versões ferrenhas, de seu lado destrutivo, de sua pulsão de morte, junto à sua perversidade. 

A cultura ainda pode vir como um instrumento para barrar a barbárie, frear as pulsões do homem demasiadamente humano, com suas garras e punhais. Mas o homem está aí com seus limites desregrados, com sua agressividade desgrenhada. Mas olhando novamente o céu do sertão, com aquele brilho nos olhos, vejo a pulsão de vida também caminhar por nossas veias, por nossos anseios de trazermos as coisas boas que temos em nós e em tudo que podemos transformar. 

Toquei mais uma vez a terra, sentindo seu cheiro e sua temperatura. Abri meus braços como se pudesse abraçar o universo, tocar as estrelas e fazer pedidos para estrelas cadentes.(Foto Renata Araujo)

Renata Araújo – Psicanalista, escritora e cantora.

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