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A conta da longevidade 

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 3 de julho de 2026
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Marcio Pochmann (foto: divulgação)

Wagner Gomes 

O Brasil atravessa uma transição demográfica silenciosa e implacável. A base da pirâmide encolhe, o topo se alarga e o tempo corre contra o equilíbrio das contas públicas. Não se trata de alarmismo: trata-se de matemática. Menos jovens ingressando no mercado de trabalho e mais idosos dependendo de benefícios significam uma pressão estrutural sobre o sistema previdenciário — e não há retórica que revogue essa equação.  

Durante décadas, o país apostou na ideia de que crescimento econômico resolveria quase tudo. Crescer é vital, mas não é varinha mágica. Quando a proporção de contribuintes diminui em relação ao número de beneficiários, o desequilíbrio deixa de ser conjuntural e passa a ser demográfico. É um fenômeno que já redefiniu políticas na Europa e na Ásia, e agora cobra lucidez por aqui. O desafio não é apenas financeiro; é político e social. Reformas previdenciárias costumam ser impopulares porque lidam com expectativas legítimas de milhões de pessoas. Contudo, adiar ajustes por conveniência eleitoral transfere a conta para as próximas gerações. E essa conta chega com juros. 

As projeções do IBGE, presidido por Marcio Pochmann (foto: divulgação) dão escala ao problema. A fecundidade caiu para 1,57 filho por mulher em 2023, abaixo da reposição. Em 2070, a expectativa de vida ao nascer deve chegar a 83,9 anos, e os idosos serão 37,8% da população. Com menos nascimentos e mais sobrevivência, a razão entre contribuintes e beneficiários tende a apertar — e muito — a Previdência. 

Há três frentes inevitáveis. A primeira é ajustar parâmetros — idade mínima, tempo de contribuição, regras de transição — de modo compatível com o aumento da longevidade. A segunda é estimular a formalização e a produtividade, ampliando a base de contribuintes sem elevar excessivamente a carga tributária. A terceira é enfrentar privilégios e distorções, garantindo que o sistema seja percebido como equânime. 

Ignorar o envelhecimento acelerado é como navegar olhando apenas o retrovisor. O Brasil precisa alinhar políticas sociais à realidade demográfica, sob pena de ver comprimidos investimentos em educação, infraestrutura e inovação — áreas decisivas para o crescimento sustentável. 

A responsabilidade fiscal, nesse contexto, não é dogma ideológico; é compromisso intergeracional. Ajustar a Previdência não significa retirar direitos, mas preservar sua viabilidade. O tempo demográfico não espera. E, quando a demografia fala, a prudência deveria escutar. 

Wagner Gomes – Articulista 

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