Blog do PCO

Tempo de cozer

Por Paulo César de Oliveira
- Atualizado em 3 de agosto de 2026
super banner topo 728x90 1
Foto arquivo Renata Araujo

 Renata Araújo

Os filhos vão tomando forma de asas esvoaçantes. Aquelas mesmas pequenas asas que viviam coladas ao corpo pequeno. Aquelas mesmas que foram se desenvolvendo dia após dia. Para uma mãe, uma contradição invade sempre o corpo de forma indagadora, instigadora, trazendo um contraponto necessário de viver o desvencilhamento na pele, e sob a pele. Ao mesmo tempo que você quer segurar a distância do voo, a distância de você necessária para tornar-se livre, é uma dor que invade a alma. 

Ao mesmo tempo, querer que os filhos permaneçam sob sua égide, não os preparam para os voos. É uma mistura de proteção e prisão. Mantê-los ali,aquecidos só os tornam incapazes. É difícil abrir as asas protetoras da mãe e oferecer as possibilidades de vivências. Sentir seus olhos despertos para a claridade lá fora, causa estranheza e a sensação de um certo abandono. Suas asas agora abrem com uma certa pretensão, acanhados também em seus primeiros movimentos. Os primeiros passos para fora da caverna são um tanto arrastados pela curiosidade do que possa existir depois do caminho traçado. Caminham ainda sem pensar em voo para a beira do portal, exigindo esforços. A mãe empurra-os meios desajeitados também com uma dor no coração – é necessário que sigam seus caminhos.

Ninguém leva muito em conta a permanência da mãe, que durante tempos mantém-se no fundo da caverna, onde a luz quase não chega para iluminar os seus caminhos. E faz parte de todo o processo, sua permanência nesse espaço recolhido chamado tempo. O tempo de cozer, elaborar. Toda a atenção ainda permanece para os filhotes que em bando fazem grupos onde criam novas identificações. Lá no fundo da caverna ela começa a bordar com linhas douradas o tecido fino que recebeu da vida. A cada ponto que fazia passando a agulha, um frescor de luz iluminava a entrada da caverna. Levou tempo para iluminar seu caminho. Redescobrir o caminhar, reinventar a estrada, para poder realizar seu próprio voo. 

E volto para o olhar para as mães, os filhos já seguiram seus caminhos. Várias noites ela dormiu com seus olhos marejados, sentindo a solidão te chamar para o mais fundo da caverna. Continuava a costurar a vida, era sua saída. Um certo dia, espreguiçou seu corpo alterado em função do tempo, em função do deslocamento transversal. Uma luz intensa, cobria toda a caverna. E os fios dourados se transformaram em ouro reluzente. Havia se reencontrado, reconstruído seu caminho. Acontece isso mesmo, as mães de filhos que voam, precisam se reinventar depois que eles se vão. Precisam dar novos nomes,  novas direções à vida que não é mais a mesma. E assim seja…

Hoje, minha filha me chamou para fazer yoga com ela. Topei pelo momento de estarmos juntas. Ali lado a lado, vivenciando toda uma história, aproveitei sua companhia tão deliciosa, de menina que se tornou mulher. Na hora do relaxamento, a professora pediu que nos colocassem na posição de feto. Ela realizava o exercício na minha frente, pude vê-la se enroscando como bebe dentro da barriga, dentro de minha barriga. Olhei a cena, a grande mulher se transformando em meu bebe novamente. Senti ela se mexer em meu ventre, passei a mão em suas costas, como se alisasse minha barriga enorme. Ela me ofereceu suas mãos, seus braços alongados, meu cordão umbilical. Meu corpo se aqueceu vivenciando a cena recriada. E uma longa história passou ali nesse ínterim. Para cada filho, sempre cantei uma música – para ela, a letra já invadia meu coração.“Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão, se eu não te amasse tanto assim, talvez não visse flores por onde eu vim, dentro do meu coração.”  Soltei-me da mão dela, hoje segura de poderia deixá-la ir. Respirei fundo mais uma vez. Seguimos. (foto arquivo Renata Araújo)

Renata Araújo  Donato – Psicanalista, escritora e cantora.

COMPARTILHE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

News do PCO

Preencha seus dados e receba nossa news diariamente pelo seu e-mail.